24/08/2007 07:00
Os pioneiros do agro-negócio
Coluna Econômica – 24/08/2007
Essa coluna foi escrita com o auxílio dos leitores do Blog.
Há duas revoluções em curso na agricultura brasileira, pouco notadas, mas que ajudaram o agronegócio a chegar onde chegou e permitirá, nos próximos anos, saltos maiores dentro do conceito de auto-sustentabilidade. Nesse país de tantos falsos heróis, apenas os homens do campo reconhecem os pioneiros da grande revolução do agronegócio.
Uma das revoluções foi o Plantio Direto, que acabou com as queimadas na agricultura e permitiu o primeiro grande salto tecnológico nas formas de cultivo – paralelamente aos avanços da Embrapa.
Como explica o leitor Adauto, o plantio direto permite menor revolvimento do solo pela não utilização de arado ou grades contribuindo para menor erosão e menor compactação do solo. Desta forma, a palha de uma safra se acumula atrás da outra, melhorando as condições físicas e orgânicas, favorecendo a absorção de água e o aprofundamento das raízes.
Nas lavouras tradicionais, como soja e milho, diz ele, não se usa há muitos anos a queimada. O arado foi importada da Europa, onde era obrigatório devido ao inverno rigoroso. Havia a necessidade de inverter as camadas do solo para que houvesse aquecimento mais rápido.
O Brasil acabou importando um modelo que não era adequado para um país tropical.
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A revolução começou em 1972, quando o agricultor Herbert Bartz, de Rolândia (Paraná), segundo conta o leitor Walder Paula, baseado em tecnologia desenvolvida no Kentucky, importou equipamentos e iniciou o PD (plantio direto) em sua propriedade. Ao mesmo tempo Nonô Pereira e Frank Dijkstra iniciaram o PD nos campos gerais de Ponta Grossa/PR.
Antes do PD, foram cometidas verdadeiras barbaridades ecológicas, conta Walder. Em Rondonópolis, sua região, houve uma erosão eólica das piores, que acabou revertida com a propagação do Plantio Direto.
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Explica o leitor Roberto Barbosa, que o PD ajudou ao produtor rural não só a aumentar a produtividade como a diminuir a erosão do solo pela manutenção de uma camada protetora de restos vegetais das safras anteriores.
A queimada está mais ligada à pecuária, diz ele. Com a integração pecuária-agricultura o pecuarista/agricultor planta soja em PD, não queima o solo e semeia capim depois da colheita do grão.
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E aí se entra na segunda grande revolução, que é a integração lavoura-pecuária com plantio direto, cujo maior propagador é outro herói da agricultura brasileira, John Landers, coordenador de Novos Projetos e Relações Internacionais.
Estudos minuciosos realizados na área do Cerrado mostraram que havia ganhos consideráveis com a chamada rotatividade de culturas. Depois, se agregou o Plantio Direto. Finalmente, incluiu-se a rotatividade lavoura-pecuária. O modelo permite, por exemplo, plantar uma oleaginosa, tirar o óleo, usar a palha para fertilizar a terra e o bagaço para fazer ração.
Além da melhoria da rentabilidade, esse processo confere à agropecuária uma estabilidade econômica inédita em termos mundiais, mudando formato de financiamento e a própria lógica econômica do campo.
Os pioneiros
Segundo o leitor Alexandre Porto, papel relevante teve, também a agrônoma Ana Maria Primavesi que sistematizou e deu consistência teórica à técnica em seu revolucionário livro, Manejo Ecológico do Solo, lançado em 1979. Ela expôs com clareza a diferença entre as características do solo tropical e temperado. Explica ele: Nós ainda vivemos no conflito entre a técnica de aração européia e da coivara indígena, ambos relativamente danosos à conservação do solo e do meio ambiente como um todo.
Ecologia e negócios - 1
Frans Claassens é presidente da Força Tarefa Holandesa de Soja Sustentável. Junta as principais multinacionai que atuam na cadeia produtiva da soja. Faz parte também da Agência de Promoção e Informações Sobre Margarina, Gordura e Óleos. Sua preocupação maior é com as questões ambientais brasileiras, por uma razão objetiva: cada vez mais consumidores e ONGs estão definindo as regras para a compra de alimentos.
Ecologia e negócios - 2
Cada vez mais, os consumidores – especialmente os europeus – estão incluindo questões cada vez mais civilizatórias na análise das práticas das empresas. Quem define o que é politicamente correto são consumidores e ONGs, diz ele
Três temas são particularmente sensíveis:
1. Destruição da biodiversidade na Amazônia.
2. Práticas agrícolas não sustentáveis.
3. Questões sociais: como posse de terra
Nos últimos anos, foram desenvolvidas várias metodologias para certificação de fazendas ou regiões, visando qualificar fazendas ou regiões das diversas culturas.
Para incluir na lista Crônica Semanal
enviada por Luis Nassif
23/08/2007 18:00
A dívida de Mato Grosso
O governador do Mato Grosso Blairo Maggi, está com uma proposta curiosa, que nem sei se será bem sucedida. Hoje em dia o estado paga mais de 10% de juros na renegociação da dívida com o governo federal. O prazo de pagamento é de 20 anos e consome de 20 a 23% das receitas líquidas do estado.
Maggi está querendo negociar com algum banco internacional, dispondo-se a pagar os 10,5% desde que o prazo seja esticado para vinte anos. Não sei se fecha. Tem a Lei de Responsabilidade Fiscal e tem-se o fato de que a dívida é em reais e o refinanciamento será em dólares. Se bem sucedido, o governo de MT reduziria o serviço atual de R$ 650 milhões para R$ 350 milhões.
enviada por Luis Nassif
23/08/2007 10:49
As ONGs ambientais
Enviado por: Benedito Domingues d
Prezado Nassif,
no período em que foi anunciado a medida provisória que dividia o IBAMA: no ex-ibama, vulgo subdiretoria da MME/EPE/ANEL, e o Instituto Chico Mendes (o CHICO MENDES TREMEU NO CAIXÃO), disse que o interesse estava no caminho do dinheiro. Veja abaixo a descrição do artigo publicado Science que reflete meus argumentos.
Por: Gustavo Faleiros e Andreia Fanzeres*
16.08.2007
Um artigo publicado na mais recente edição da revista Science, o semanário científico mais influente do mundo, está causando um pequeno terremoto na cena em que atuam as organizações não-governamentais ambientalistas. sEntitulado "A Globalização da Conservação" e assinado por pesquisadores de diversas nacionalidades reunidos na Wildlife Trust Alliance, o texto sustenta que as grandes ONGs internacionais – Bingos (Big International Non Governamental Organizatios), na sigla em inglês - têm estratégias falhas na proteção do meio ambiente e prejudicam a atuação de pequenas instituições de países em desenvolvimento.
Os pesquisadores buscam demonstrar que a forma de atuação de organizações como Conservation Internacional (CI), The Nature Conservancy (TNC) e World Wildlife Fund (WWF) se assemelha a de grandes empresas multinacionais. Isso se dá através da criação de programas genéricos, que servem como marcas para a obtenção de recursos financeiros. O texto cita as campanhas 'Hot Spots' da CI e '200 Ecoregions' da WWF como casos extremamente bem sucedidos na arrecadação de fundos, mas não tão efetivos na conservação da biodiversidade. Houve um incremento de 40% a 100% nos orçamentos destas ONGs nos Estados Unidos entre 1998 e 2005, e na opinião dos autores, os conceitos ambientais utilizados não resguardam os ecossistemas em perigo.
"Embora estas marcas sejam derivadas das ciências da conservação, elas são vulneráveis à crítica científica. Por exemplo, planos previamente concebidos que miram áreas fixas para conservação (Hot Spots e Ecoregions) são insuficientes para lidar com ameaças repentinas como doenças ou espécies invasoras, a alteração do leque de espécies graças ao aquecimento global, ou a dinâmica espacial de ecossistemas marinhos", descreve o artigo.
A presidente do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), Suzana Pádua, é uma das autoras do artigo na Science e explica que há algum tempo existe um sentimento entre pesquisadores de que as Bingos, com a grande quantidade de dinheiro que têm, ditam os rumos da conservação em todo mundo, mas não acertam o foco onde a biodiversidade está mais necessitada. Para aumentar a eficiência das ações de proteção aos ecossistemas, Suzana observa que a Wildlife Trust Alliance defende que as pequenas organizações locais tenham mais voz. Segundo ela, ONGs de menor porte que dependem unicamente de parcerias e recursos das grandes "perdem identidade." "Estamos propondo um exercício para que trabalhemos com respeito e cooperação de fato", diz a presidente do IPÊ.
O ponto-chave de "Globalização da conservação" parece ser a questão de que ao mesmo tempo em que os recursos das Bingos não param de crescer, a verba oficial de governos e organismos multilateriais para a proteção da biodiversidade caiu 50% na última década. É a partir deste desequilíbrio que as grandes ONGs passam a comandar as políticas domésticas de meio ambiente. Uma das consequências, sustenta o artigo, é uma estrutura de decisões de cima para baixo que não considera o conhecimento de instituições e especialistas locais. "Organizações pequenas e localmente focadas, trabalhando na linha de frente da perda da biodiversidade são frequentemente as mais eficazes", ponderam os autores.
Outra consequência negativa da influência das Bingos, aponta Suzana, é a deficiência na preparação de profissionais locais em práticas de conservação. Um dado no artigo revela que dos 3,2 bilhões de dólares aplicados entre 1990 e 1997 na proteção de ecossistemas na América Latina, apenas 4% foram destinados à "capacitação". "Hoje, só 30% dos artigos científicos sobre biodiversidade na Amazônia são escritos por brasileiros. Nós estamos fazendo parcerias, mas o conhecimento está ficando no primeiro mundo", reclama a ambientalista.
Enviado por: João
Olha, se é para piratear texto do Eco -- www.oeco.com.br -- faça o favor de pelo menos citar a fonte, OK?
Resposta
Não tem pirataria nem biopirataria. Tem um leitor que enviou um comentário com um artigo mencionando o autor, mas não a fonte.
Uma observação bem educada da sua parte, com o endereço do artigo do site, teria dado muito melhor resultado: o endereço do site seria divulgado da mesma maneira, e você não prejudicaria sua imagem com comentário agressivo e gratuito.
enviada por Luis Nassif
23/08/2007 07:00
A agroenergia e o meio ambiente
Coluna Econômica – 23/08/2007
Mato Grosso responde por 8% da produção mundial de soja, mais de 30% da produção brasileira. E parte dessa produção é em regiões da Amazônia legal.
Nos últimos anos, houve campanha cerrada na Europa contra a soja que proviesse da Amazônia, especialmente de novas regiões abertas na selva. Foi um movimento bastante estimulado pelas ONGs e que começou a afetar as vendas externas.
Por isso mesmo, o tema tornou-se prioritário para a Câmara Setorial da Cadeia de Oleaginosas e Biodiesel, criada pelo ex-Ministro da Agricultura Roberto Rodrigues.
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Ontem, em Cuiabá, na véspera do início da Bienal do Agronegócio a Câmara se reuniu para discutir, entre outros temas, a questão ambiental.
Coordenador de um dos fóruns, e representante da Abiove () Carlos Lovatelli descreveu os resultados de uma mudança estratégica, na qual o setor resolveu se antecipar aos ambientalistas.
A Abiove decretou uma moratória de dois anos, período no qual seus associados não iriam adquirir soja de áreas desmatadas posteriormente a 24 de junho do ano passado. Em seguida, chamou as ONGs para participar do processo.
Como 47% das biomas da Amazônia estão em terra devolutas, não iriam dar conta do recado sem a participação do governo. No mês passado, foi organizado um evento internacional, via Internet, com a participação de grandes clientes europeus, produtores nacionais e membros do governos, no qual todas as questões foram tratadas abertamente.
Em seguida, Abiove e Greenpace foram até a Casa Civil, para solicitar um interlocutor que pudesse, do lado do governo, auxiliar a monitorar a questão ambiental.
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Para ampliar a decisão, quando se negociou a moratória para o setor da soja, decidiu-se que, para entrar com o pedido, o agricultor teria que se comprometer a não plantar soja em terrenos na Amazônia legal desbravados depois de 24 de junho.
Na verdade, o impacto é maior sobre o preço da terra do que da produção. É pequeno o percentual de soja plantada na Amazônia, a maior parte da qual em cima de pastos abertos muito antes da data de corte. Mesmo as novas áreas abertas só começarão a produzir daqui a cinco anos, pelo menos.
Mesmo assim, serviu para marcar posição. O resultado foi a redução drástica do número de reclamações dos compradores europeus – apesar de, na reunião internacional, terem faltado os compradores americanos e japoneses.
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Esse movimento deverá se ampliar esta semana, quando os produtores mato-grossenses deverão assinar com o governo do Estado um pacto para Recuperação das Áreas de Proteção. Em um movimento paralelo, as associações de produtores locais já estão disseminando selos e certificações ambientais, com o qual cada propriedade certificada poderá vender livremente sua produção, sem as barreiras sanitárias e, agora, ambientais.
A mamona
Apesar do entusiasmo de setores do governo com o biodiesel da mamona, pesquisadores da Embrapa acham que a torcida é mais de cunho ideológico e social do que econômico. A mamona tem baixa tolerância a solos compactados, há dificuldade maior com a viscosidade do óleo, e muitas limitações nos cultivares – as culturas que preparam as sementes para plantio. Aposta-se mais no dendê, girassol e canola
O dendê - 1
Dentre todas as apostas da Embrapa, a mais certa é o dendê, que é uma cultura perene – isto é, que dá o ano inteiro. O dendê é considerada uma vaca leiteira, que permite a colheita diária. Se não tirar e usar, aliás, fermenta. É a cultura ideal para o pequeno produtor, inclusive por ser propícia a áreas degradadas. Mesmo assim, tem limitações geográficas: é boa para nordeste e parte da Bahia.
O dendê – 2
Tempos atrás, a Embrapa montou um acordo com instituições francesas , visando uma rede internacional de pesquisa do dendê, envolvendo países da América do Sul, Ásia e da África. A pesquisa permitiu cruzamentos de dendê que aumentaram a resistência e a produtividade. Essas pesquisas acabaram concentradas na Fazenda Urubu, a duas horas de Manaus, por barco ou avião. Parte do pólen deveria vir da África.
O dendê – 3
O problema foi que, em 2002, por alguma razão, a Embrapa deixou de renovar o acordo com os franceses. Pior: a Fazenda Urubu deixou de contar com recursos para manutenção. São 440 hectares de plantação viável de dendê. Mas, com seis meses de abandono, a floresta acaba com o local. A luta dos pesquisadores é convencer a Embrapa a retomar as pesquisas, recuperar o Urubu, para evitar um atraso de dez anos na produção de dendê.
O girassol
Na década de 80, quando sobreveio a primeira crise do petróleo, houve um esforço tecnológico para desenvolver o óleo de girassol. Criou-se uma estrutura de pesquisa, mas que acabou desaparecendo com o barateamento do petróleo. O girassol é considerado um óleo tão superior, que há quem lamente que ele seja desviado do consumo humano para a produção de biodiesel.
O algodão – 1
O grande “boom” agrícola atual em Mato Grosso é o algodão, inclusive permitindo a criação de alguns pólos têxteis promissores. Além do tecido, o óleo do algodão é considerado um dos mais promissores, ao lado da soja e do girassol – e do dendê para pequenas propriedades. Hoje em dia, segundo levantamentos da Secretaria da Agricultura estadual, com o câmbio a margem do agricultor é negativa.
O algodão – 2
Uma arroba de algodão sai por R$ 44,00 para o produtor. Na hora de vender, o produtor consegue apenas R$ 38,00 no mercado interno e R$ 35,00 para exportação. Mesmo assim, existem no estado 123 usinas para o beneficiamento de 850 a 900 mil toneladas de pluma/ano
enviada por Luis Nassif
22/08/2007 07:00
Porque desvalorizar o real
Coluna Econômica – 22/08/2007
Anos atrás fui a um evento na Federação das Indústrias de Santa Catarina. Lá, foi apresentado o caso da Marisol, uma indústria têxtil catarinense que tinha montado uma rede de lojas em todo o Oriente Médio. Estava exportando seus produtos – roupas para crianças – e pensava em transformar as lojas em ponto de vendas de outros produtos brasileiros.
Ontem, li nos jornais que a Marisol fechou algumas fábricas, despediu 800 empregados e resolveu implantar um método Toyota de redução de custos. Não resistiu ao dólar barato, nem nas exportações nem no mercado interno. Provavelmente, vai continuar bolando produtos por aqui, mas terceirizar a produção para a China.
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O caso Marisol é emblemático da perda de rumo da economia brasileira. Há vários modos da economia crescer. Em um mundo globalizado, com as economias nacionais cada vez mais abertas, enfrenta-se uma competição cerrada com o exterior. Se uma empresa perde competitividade, é derrotada não apenas no mercado externo, como no interno.
Além disso, as empresas expostas à competição externa se constituem na vanguarda das inovações em qualquer economia. Elas puxam a inovação, a criatividade, os novos métodos de produção, a melhoria da qualidade.
Justamente por isso, todos os grandes movimentos de desenvolvimento modernos tiveram por base a competição no mercado externo. E, como primeiro passo, uma moeda competitiva. Isto é, um câmbio desvalorizado.
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Foi assim com a Alemanha, Itália e Japão no pós Guerra, com a Coréia nos anos 60, com a Itália nos anos 90, com a China. O câmbio desvalorizado serve para compensar as vulnerabilidades iniciais da economia. Não há infra-estrutura, o sistema tributário é inadequado, não há condições para investir em alta tecnologia? É a moeda desvalorizada que permite ao produtor interno colocar um produto lá fora tendo como vantagem o preço mais barato.
Em 2003, logo após a grande desvalorização cambial de 2002, centenas de pequenas empresas brasileiras passaram a competir com produtos com componentes tecnológicos, valendo-se do fator preço. Ofereciam quase a mesma coisa dos líderes de mercado a um preço muito menor.
Se a desvalorização cambial tivesse se mantido, elas aumentariam suas vendas, seus lucros. E, em um segundo momento, passariam a investir em mais tecnologia, inovação, galgando a escala de qualidade dos produtos globais.
Esse movimento – o mesmo que levou a Marisol a montar sua rede no Oriente Médio – foi abortada pela revalorização do real, promovida pelo governo Lula na gestão Antonio Palocci, e que prosseguiu na gestão Guido Mantega.
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Com a apreciação cambial, apenas os grandes grupos, que atuam em áreas de matéria-prima, conseguirão competir. O conjunto da economia perde. Todos os países que se desenvolveram – desde a Inglaterra, no início da Revolução Industrial – tinham por princípio importar matéria prima e exportar produtos acabados.
Agora, quando a crise ameaça corrigir os erros do câmbio, é bem provável que, passado o maremoto, o Banco Central volte a apreciar o real, dentro de sua missão pertinaz de matar o futuro.
Para incluir na lista Crônica Semanal
enviada por Luis Nassif
21/08/2007 15:49
O esfacelamento do Ibama
Por Ricardo Tripoli*, especial para o Projeto Brasil
Desde o dia 27 de abril acompanho de perto a discussão em torno da medida provisória (MP) 366/2007, editada pelo governo, que “reestrutura” o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e divide suas funções com o recém-criado Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, que abrigará 1,5 mil funcionários.
Segundo informações, com a criação do novo órgão seriam extintos 130 escritórios do Ibama e ninguém sabe explicar ao certo o que seria colocado no lugar. O fato é que o orçamento do Ibama sempre acaba prejudicado com a adoção da prática do contingenciamento pela área econômica do governo Lula. Com o novo instituto também seriam criados 50 cargos de diretores, burocratizando e retardando ainda mais as decisões na área do meio ambiente.
De acordo com a proposta, o Ibama permanecerá encarregado de licenciar e fiscalizar os empreendimentos ambientais, além de monitorar os recursos naturais. Ao Instituto Chico Mendes caberá o gerenciamento de unidades de conservação, como parques e reservas. Inicialmente, essas atribuições podem até parecer atos em prol da gestão das Unidades de Conservação Brasileiras, mas a real motivação do governo é, sem dúvida, dar início ao processo de esfacelamento do Ibama.
Temo que se a proposta for aceita do jeito que está, as unidades de conservação serão administradas por ONGs, ou seja, serão criadas fazendas públicas com administrações privadas. Se esse “monstrengo” for realmente aprovado, haverá um processo de burocratização no Ibama e morosidade nos processos de licenciamento ambiental, pois amplia o número de entidades revestidas dessa competência.
Acreditei que fosse apenas mais uma medida arbitrária originada no Palácio do Planalto. O governo não considerou o fato do Ibama sempre ter sido o grande guardião da biodiversidade brasileira. Este órgão demorou quase 20 anos para se consolidar e agora está sendo ameaçado por uma medida autoritária. Isso vai na contramão da evolução.
Se concluída, esta será a mais radical reestruturação no setor da administração pública do meio ambiente desde o governo José Sarney (1985-1990), quando o Ibama foi criado e passou a exercer funções que antes eram dos extintos Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) e da Superintendência de Desenvolvimento da Pesca (Sudepe).
Atentos a todos estes fatos, os servidores do instituto fizeram uma pressão legítima no Congresso Nacional e alertaram que a proposta enfraqueceria o órgão e criaria gargalos que inviabilizariam a política ambientalista do país. Porém, não foram ouvidos pelo governo. Indignados com a falta de diálogo mais de seis mil servidores iniciaram uma paralisação nacional. A partir desse momento percebi que o presidente Lula e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, não estavam dispostos a negociar. Pura intransigência.
Preocupados com a gestão ambiental no país, um grupo suprapartidário de parlamentares foi ao encontro da ministra solicitando que ela debatesse com maior profundidade a questão. Cheguei a sugerir uma proposta de aditamento para que a matéria fosse analisada melhor pelo Parlamento. Nós tentamos estabelecer um acordo em relação à MP. Novamente, tudo em vão.
Como se não bastasse, o governo atual aniquilou o licenciamento ambiental no país e agora quer desmantelar o Ibama. Esse assunto deveria ter sido tratado com mais responsabilidade pelo presidente da República. Não podemos prejudicar a gestão ambiental no Brasil. Estão promovendo uma ditadura velada. Repito: não há diálogo entre o Executivo e os servidores. Falta lucidez e maturidade à gestão petista.
Um fato curioso é que tanto os parlamentares da base governista como os de oposição cobraram a retirada da MP da pauta da Câmara dos Deputados. Foi uma das poucas matérias na Casa em que houve essa convergência. No entanto, a medida foi aprovada pelo plenário em 12 de junho e agora está sob análise do Senado Federal.
Não é a toa que vários senadores já estão divergindo sobre o tema. Sugiro, neste momento, cautela e conscientização pelo Colegiado. Mas, se tiverem o mínimo de bom-senso votarão contra o projeto de conversão 19/07 (oriundo da medida provisória 366/07), que está incluído na ordem do dia do Plenário do Senado desde o dia 3 de julho. Depois não digam que não alertei. Defender o Ibama é defender o Meio Ambiente.
*Ricardo Tripoli é ambientalista, advogado e deputado federal pelo PSDB (SP). Hoje é Vice-Presidente da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados. Entre seus principais projetos na área, destacam-se a Política Estadual do Meio Ambiente, o Projeto São Paulo Pomar e o Código Estadual de Proteção aos Animais (Lei 11.977).
enviada por Luis Nassif
21/08/2007 07:00
Os dois tempos da crise
Coluna Econômica – 21/08/2007
Ex-presidente do Banco Central no governo Fernando Collor, Ibrahim Éris é um dos craques do mercaddo. Economista de formação sólida, tornou-se um dos primeiros gestores de fundos agressivos, tornando-se um dos perdedores na grande crise da Rússia em 1998 - ao lado de outros campeões do mercado.
Perdeu dinheiro, mas ganhou em sabedoria. Hoje em dia, provavelmente é a voz mais acatada no mercado, sobre fenômenos financeiros. É nessa condição que Éris considera exagero tratar a atual crise meramente como a do "subprime" - as hipotecas de risco do mercado americano. é uma crise global, devido `a enorme liquidez internacional Só se estava aguardando um rastilho para detonar a bomba.
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Éris divide a crise atual em dois momentos. O primeiro, o do pânico.
Para entender esse primeiro momento, é importante juntar dois fenômenos interligados no mercado financeiro: a volatilidade dos ativos (isto é, a oscilação das cotações) e a alavancagem (a capacidade de tomar crédito por parte dos fundos e investidores em geral).
Quanto menor a volatilidade, maior a propensão dos tomadores em tomar crédito, e do sistema bancário em conceder. Com menos volatilidade, teoricamente há menos risco.
Esse quadro de aumento sistemático no preço dos ativos mundiais, sem maiores volatilidades, desarmou o mercado dos riscos inerentes ao negócio. O que se viu foi a baixa volatilidade provocando uma explosão de endividamento.
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Quando a volatilidade explode, os fundos têm que vender ativos para fazer frente a dois fenômenos: a corrida dos investidores; e a adequação do nível de endividamento ao valor patrimonial da carteira.
Precisando se desfazer dos ativos, o primeiro passo do gestor é buscar liquidez, fazer dinheiro, isto é, se livrar de seus ativos mais líquidos, privilegiando a liquidez em detrimento da qualidade. Literalmente joga fora o pote de ouro. E aí tem início o efeito contágio.
O sujeito que se endividou em yens para aplicar em reais, por exemplo, de repente tem que voltar correndo para o yen para liquidar seu financiamento. Quando faz isso, provoca uma valorização da moeda em relação ao dólar, derrubando investidores do yen que nada tinham a ver com o "subprime"
É o que está ocorrendo nesse momento, e só irá se acalmar quando cessar a volatilidade. Por isso mesmo, não adianta comemorar uma alta nas Bolsas hoje, se amanhã vier nova baixa. Só depois de algumas semanas será possível, saber se a volatilidade foi reduzida.
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Passada a fase de volatilidade, entra-se no segundo tempo. Nesse período, o investidor voltará a privilegiar a qualidade, em detrimento da liquidez. E, aí, o Brasil poderá ser uma boa aposta, segundo Éris, desde que mantenha as contas externas em ordem.
Segundo ele, as empresas brasileiras ostentam altos níveis de rentabilidade, o mercado interno está forte, fatores que poderão estimular a vinda de investidores, atrás de ativos reais.
Por ora, é aguardar a poeira baixar e ruírem os últimos edifícios abalados.
Para incluir na lista Coluna Econômica
enviada por Luis Nassif
20/08/2007 14:37
Volatilidade e crise
Para se ter certeza de que a crise abrandou, não adiantam dias isolados de alta nas cotações, seguidos de dias de baixa. A única maneira de conter a crise é com o fim da volatilidade. E isso se saberá somente depois de muitos dias analisando o mercado.
Amanhã vou abordar com mais detalhes o tema.
enviada por Luis Nassif
20/08/2007 07:00
Os gestores do Banco Central
Coluna Econômica – 20/08/2007
Na edição de sexta-feira passada, o “Estado de São Paulo” publicou uma matéria sobre os gestores de fundos que já tinham participado do Banco Central. Havia Armínio Fraga, ex-presidente, Luiz Fernando Figueiredo, o ex-diretor Afonso Bevilacqua. Quase todos ex-diretores do BC que, ou saíram para montar seus próprios fundos, ou para trabalhar em instituições financeiras.
Nesse trabalho, o lucro é garantido pelo livre fluxo de capitais. De um lado, abre aos fundos a captação de investimentos brasileiros no exterior. De outro, confere flexibilidade para retirar dinheiro do país em caso de crise.
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Esse é o ponto central que explica esses anos todos a extraordinária permissividade do Banco Central não apenas com juros, como com o fluxo de capitais e com a apreciação cambial. A futura clientela desses diretores, o mercado onde eles irão trabalhar, depois de deixar o BC, são esses.
Nos últimos anos, a diretoria foi ocupada por pessoas com escassez de currículo e excesso de ambição. No currículo do ex-diretor Afonso Bevilacqua – o sujeito que bancou as extraordinárias taxas de juros do período – constavam dezenas de artigos publicados nos jornais econômicos nacionais. No de outro diretor, Alexandre Schwartsman, apenas currículos escolares, nenhuma obra acadêmica de peso.
A avaliação do próprio mercado sobre eles era de que se tratava de figuras inexperientes, juniores para os cargos que passaram a ocupar. Mas o destino da economia foi colocado em suas mãos.
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Para dar sobrevida a esse modelo, havia a necessidade de se criar uma utopia. Ela veio na forma do “investment grade” – o “grau de investimento”, galardão máximo que uma empresa ou mercado ou país pode receber de uma agência de risco. Significa que os grandes investidores internacionais poderão entrar com risco pequeno no negócio o que, teoricamente, os levaria a exigir juros menores. A fantasia do grau de investimento sustentou essa farra cambial e monetária esses anos todos.
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Bastou a crise internacional se acirrar, para o risco Brasil aumentar. Não apenas isso. Para um país com moeda inconversível (isto é, que não é negociada internacionalmente) e com superávit nas contas externas, a entrada de dólares pelo mercado financeiro é prejudicial, serve apenas para beneficiar parte das empresas, em detrimento do conjunto.
Uma empresa ou banco, por exemplo, pode captar recursos no exterior para aplicar aqui, ganhando no diferencial de juros. Quando traz os dólares e vende no mercado, o Banco Central entra e compra, para evitar excesso de dólares. Quando compra, o BC joga reais na economia. Para evitar excesso de reais circulando, lança títulos públicos, que coloca no mercado enxugando os reais de volta. Na volta do parafuso, para cada dólar que entra, a contrapartida é um aumento da dívida pública, um desvio de poupança para financiar a dívida pública.
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Agora, que a exuberância irracional dos mercados parece arrefecer, tente-se estimar quando essa farra trouxe de investimento produtivo para o país. Pouquíssima coisa. Para os ex-diretores do BC, tudo.
Para incluir na lista Coluna Econômica
enviada por Luis Nassif
17/08/2007 21:56
O pico do petróleo
Enviado por: Almeida
Prezado Sr. Nassif,
O autor do texto postado, senhor João Carlos, menciona o fenômeno do "peak oil', ou Pico do Petróleo, para tornar mais familiar a expressão que designa o acontecimento da estagnação e posterior declínio da produção de petróleo.
Ele cita comparações da crise que antevê nos próximos anos com acontecimentos históricos da magnitude da Revolução Francesa ou a Grande Depressão. Talvez o declínio do dólar e a industrialização da China sejam fenômenos comparáveis aos eventos citados.
O que se antevê como o Pico do Petróleo não tem precedentes. Poderíamos traçar um paralelo com o que ocorreu no Império Romano após a invasão dos povos bárbaros, mas este não foi um acontecimento abrangente de toda humanidade. O Pico do Petróleo será uma crise de paradigma da civilização.
Como a discussão de fenômeno tão grave é ínfima na mídia global e na brasileira em particular inexistente, passo a fazer uma apresentação do assunto.
O Pico do Petróleo
A extração mundial de petróleo atingirá um apogeu nos próximos anos, um patamar de produção que não se repetirá mais na história. Esta é a conclusão de notáveis geólogos e homens vinculados a esta indústria. O petróleo convencional, óleo não classificado como pesado e extraído em terra firme ou águas relativamente rasas já alcançou este patamar; a produção agora depende cada vez mais do petróleo não convencional; óleos pesados ou obtidos em águas profundas, em áreas polares, de xistos e areias betuminosas, enfim, por técnicas que o tornam mais caro. Uma nova crise do petróleo se avizinha diferente das anteriores, que tinham origem na política; a nova deriva de causa natural, o homem está atingindo o limite da geologia do petróleo. Será crise da principal fonte de energia primária consumida pela humanidade. Crise também de uma civilização baseada em combustão fóssil, que terá de buscar solução para o declínio da principal fonte fóssil, e se confrontar com o dilema dos limites para a sua presença na terra.
O petróleo não tem um substituto com todas as suas qualidades, este é o complicador do problema; não se vislumbra alternativas tecnológicas competitivas em custo com ele, todas necessitam que o petróleo suba de preço para competir. O petróleo assumiu a primazia como energético por suas virtudes; desbancou o carvão e por muito tempo limitou o espaço para participação do gás natural no mercado de energia; isto porque seus custos são baixos; sua versatilidade permite tecnologia mais simples para transportá-lo e aproveitar onde se fizer necessário. O petróleo responde por 37% da energia primária consumida, carvão e gás natural juntos por mais 50%; estes últimos, devido aos custos e tecnologias disponíveis, são os candidatos mais próximos a substituir o petróleo. Mas. os candidatos a substitutos são também recursos finitos, tenderão ao esgotamento mais rápido na medida em que forem usados mais intensamente. A civilização combustível estará apenas se enganando com paliativos para fugir ao dilema que a confronta.
A produção de óleo em um dado momento é resultante do que é extraído de um conjunto de poços que estão em diferentes fases de produção, alguns deles estão em declínio e, se quisermos que a produção do conjunto se estabilize ou mesmo cresça, é necessário que novos poços entrem em produção para compensar a depleção dos poços antigos e atender a demanda suplementar. Para satisfazer a demanda projetada para 2015 no mundo, por exemplo, calcula-se uma capacidade nova de produção de 40 milhões de barris por dia; é mais do que a OPEP produz; é quase metade da extração de hoje. A maior parte dessa capacidade nova será para atender a depleção dos poços atuais. O volume das descobertas nos últimos anos e a tendência de queda nos próximos não dá certeza de se alcançar essa capacidade. Quando não tivermos capacidade nova suficiente para cobrir a depleção da capacidade, terá passado o pico.
O fenômeno foi descrito pela primeira vez pelo geofísico americano Marion King Hubbert.. Ele era um notável cientista quando foi trabalhar na Shell nos anos 40 do século passado. Reunia conhecimentos práticos da geologia do petróleo com contribuições teóricas importante no campo da Geofísica. Foi um homem polêmico, teve militância no Movimento Tecnocrático, onde defendia tese sobre a economia com base na energia, se contrapondo a visão financeira desta. Em 1949, quando o EUA era simultaneamente o maior produtor, exportador e consumidor de petróleo, ele fez a primeira e estarrecedora observação de que a era do combustível fóssil teria uma duração breve. Ainda trabalhando na Shell, em 1956, apresenta em público trabalho prevendo que a produção de óleo nos chamados US-48, o território americano ao sul do Canadá, atingiria um pico entre 1966 e 1971. Inicialmente ele foi desestimulado a apresentar esse trabalho, afinal trabalhava numa companhia de petróleo, ele mostrava um futuro de estagnação e queda no negócio da companhia, isto soava a falar de corda em casa de enforcado. Depois foi menosprezado e ridicularizado pela sua previsão, ainda se vivia na euforia do óleo barato. Mas, desde 1971 a produção daqueles 48 estados está em declínio. A curva que descreve o fenômeno é conhecida como a Curva de Hubbert e teve sua validade científica aceita pela academia de ciências americana em 1978.
Se numa província tão grande e tão rica em petróleo como a área dos US-48 , que ainda faz do EUA o terceiro maior produtor, o fenômeno se verifica há 35 anos; se neste mesmo período em outros 30 países, inclusive da OPEP, o pico foi atingido e a produção vem caindo; então um dia chegará ao conjunto de todas as províncias de óleo no mundo da mesma forma. Não será o fim do petróleo, será o apogeu e a conseqüente queda. O declínio do número de descobertas é a principal evidencia de que o pico está próximo, o volume de óleo descoberto cai desde o pico atingido em 1964, ano em que foi descoberto três vezes mais óleo do que o consumido. Desde 1980 o consumo supera cada vez mais as descobertas, superando estas em várias vezes atualmente. Em 2005 foram achadas reservas suficientes para apenas dois meses de consumo. Não há um consenso de quando acontecerá o pico, as estimativas giram em torno de 2010, há quem diga que pode ocorrer neste ano.
Os problemas econômicos com o esgotamento do petróleo começam quando ele atinge o apogeu. Se não houver produção para satisfazer a demanda os preços do óleo subirão, mas isto não implicará na subida da oferta, pois ela estará no limite, a escassez será permanente obrigando a utilização de outros energéticos. Os preços altos serão necessários para viabilizar a transição para outras fontes de energia intrinsecamente mais caras, situação vivida nas crises passadas, que deflagrou vários programas de substituição do óleo ou de economia de energia, mas aqui as comparações param. Eventual diminuição da procura de óleo será acompanhada pela queda de produção, não dependerá mais da razão política o desbloqueio da oferta. Forçar a queda do preço do óleo inviabilizará o esforço da transição, foi o que se viu após a queda dos preços do óleo nos anos 80, quando se voltou ao esbanjamento de energia e programas para substituição foram para o ralo, ou passaram por grandes dificuldades. Com o pico do petróleo uma era de energia barata estará encerrada.
Algumas conseqüências podemos facilmente antever, elas se espalharão por toda cadeia produtiva, citarei duas de forma breve. O transporte atual é dependente de óleo em mais de noventa e cinco por cento das suas aplicações, nos casos intercontinentais ou de longo curso a dependência é cem por cento. A distribuição produtiva globalizada atual enfrentará óbices. A produção e distribuição de alimentos enfrentará problemas para abastecer mais de seis bilhões de pessoas. Há uma relação grande entre as calorias de alimentos e as calorias de petróleo que usamos para a produção agrícola moderna, subir o preço do óleo implicará subir o preço dos alimentos, ou comprometer sua produção.
Fico por aqui. Há muitos aspectos para discutir, se desejar envio-lhe informações mais detalhadas. Grato pela atenção e divulgação.
enviada por Luis Nassif
17/08/2007 20:27
O fôlego da China
Enviado por: Henrique
Nassif vc esta supondo que uma queda do consumo americano irá necessariamente afetar a capacidade de importar da china. O que obviamente a obrigaria a reduzir seu ritmo de crescimento. O que não necessariamente pode vir a acontecer. Carlo Aguiar deMedeiros (em \"A China como um Duplo Polo na Economia Mundial e a Recentralização da Economia Asiática\") explicita a capacidade chinesa de afastar fortemente uma restrição externa ao seu cresciemento. Acho que você está exgerando na magnitude da queda do consumo americano. Ela teria de ser monstruosa para realmente afetar a capacidade de importar chinesa. E lembre-se toda crise tem uma duração sejam algumas semanas ou alguns anos. Quando vemos a relação importação/reservas da china podemos perceber o quanto ela tem bala na agulha para suportar uma queda do consumo americano.
enviada por Luis Nassif
17/08/2007 11:27
A CVM e os jornalistas
Está correta a CVM de propor um código de conduta para jornalistas financeiros. Nos últimos anos proliferaram as notas e matérias espuma, com evidentes propósitos especulativos.
A maioria dos jornalistas não fez por mal, nem aplica em Bolsa, mas pela ânsia do "furo" e por não haver um código explícito sobre a matéria.
Uma discussão sobre conduta ajudará a todos: a mídia, os jornalistas e o mercado.
enviada por Luis Nassif
17/08/2007 10:37
A indústria do "rating"
enviado por: Christian Bojlesen
O mais curioso no meio de toda essa crise é o pouco conhecimento do processo de rating, especialmente no tangente as diferenças no processo para produtos estruturados.
Em uma emissão normal de dívida de uma empresa, uma ou mais CRAs (agência de rating) são contratada para fazer uma análise da habilidade de pagamento da empresa.
Em um processo de avaliação de produtos estruturados como CDOs, as mesmas agências são contratadas para prestar consultoria e trabalham com os emissores para definir qual o limite máximo para que cada tranche receba um determinado rating.
Lembra a velha tática usada em tempos de escola, de perguntar diariamente para o professor se o trabalho feito está bom e o que pode ser melhorado, com a certeza que ele não terá argumentos para dar uma nota baixa.
É um gritante conflito de interesse, pelos quais as CRAs ganham dinheiro ajudando na estruturação dos produtos, que depois elas vão ter que avaliar. Se esse simples detalhe fosse entendido no princípio grandes prejuízos seriam evitados por quem comprou as tranches mezanino de CDOs, como muitas instituições européias e asiáticas.
enviada por Luis Nassif
17/08/2007 10:36
Economista em tempo parcial
Em sua coluna na “Folha” de hoje o Luiz Carlos Mendonça de Barros afirma que a crise atual era absolutamente previsível há tempos. Se era previsível é porque o sistema financeiro internacional estava disfuncional, permitindo desequilíbrios de monta.
Como ele explica, então que nos últimos meses ele tenha insistido tanto que o modelo atual (de commoditização da economia brasileira, de apreciação cambial) era irreversível?
Era “desenvolvimentista” quando tinha pretensões políticas. Depois tornou-se mercadista, apostando na inevitabilidade de um modelo que, agora, quando a crise eclode, admite que era precário.
Viva José Roberto, o Mendonça de Barros economista de peso e em tempo integral.
enviada por Luis Nassif
17/08/2007 07:00
A crise e o superávit comercial
Coluna Econômica – 17/08/2007
Há dois fatores capazes de atrapalhar as contas externas brasileiras. O primeiro, a redução nos preços dos principais commodities de exportação (complexo soja, minérios, açúcar etc). O segundo, a queda na quantidade exportada.
O primeiro fator depende do nível de atividade e do comércio mundial e também dos investimentos dos fundos especulativos. O segundo depende da atividade mundial. Ambos – atividade e comércio – serão afetados pela crise econômica atual.
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A primeira peça desse desaquecimento está na economia americana. Com a queda nos preços dos imóveis e a crise do crédito, o consumidor americano estará muito menos propenso a consumir nos próximos anos. Embora as previsões apontem para um crescimento, ainda que modesto, do PIB americano, o consumo deverá registrar a primeira queda em 17 anos.
Essa queda impactará todos os países exportadores, particularmente a China. Com menor demanda, o ritmo de crescimento da China deverá se reduzir e, com ele, o consumo e as cotações dos principais commodities mundiais.
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Aí entra o Brasil. Nos últimos anos os superávits da balança comercial foram sustentados pela explosão no consumo de commodities. Em 2003, com o real desvalorizado e a economia mundial se acelerando, havia amplo espaço para uma ampliação das exportações de produtos manufaturados e semi-manufaturados com componentes tecnológicos.
Em 2003 e 2004 muitas pequenas empresas conseguiram espaço no mercado mundial, vendendo produtos com algum valor tecnológico similar aos líderes de mercado, e a um preço bem menor – graças ao câmbio. Com a apreciação cambial, esse sopro exportador se reverteu e o país voltou a depender fundamentalmente das commodities.
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Vamos a um pequeno exercício numérico em cima da balança comercial de julho. No total, o superávit comercial (exportações menos importações) foi de US$ 3,35 bilhões. As exportações de produtos básicos e semimanufaturados somou US$ 6,782 bilhões.
Pedi ao Departamento Econômico da Agência Dinheiro Vivo que simulasse de quanto seria a queda nas vendas de acordo com algumas hipóteses de redução de preços e de quantidade. A análise englobou os dez primeiros itens de exportações de básicos, somando US$ 3,3 bilhões.
Se ocorrer uma queda de 10% nas cotações desses produtos, e 10% na quantidade vendida, haverá um baque de 19% nas exportações. Ou, estendendo a análise para o universo dos básicos e semimanufaturados, US$ 1,3 b – ou 38% do superávit do mês. Se as cotações caírem 15% e o consumo 10%, a queda corresponderá a 48% do superávit comercial.
Não se levou em conta eventual queda nas exportações de industrializados, cujo maior mercado são os Estados Unidos e América Latina. De qualquer modo, a conta vale como noção de valor.
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Com a queda do superávit comercial, as contas externas brasileiras – que dependem de outros itens – poderão ficar apertadas. O desafio, agora, consistirá em permitir a rápida desvalorização do real para tentar recuperar o terreno perdido na indústria de transformação.
Para incluir na lista Coluna Econômica
enviada por Luis Nassif
16/08/2007 07:00
O fim da era de oportunidades
Coluna Econômica – 16/08/2007
Seja qual for o resultado da atual crise internacional, a verdade dolorosa é que o Brasil perdeu o bonde desses doze anos de exuberância da economia mundial.
A crise está se alastrando. Apesar de manifestações otimistas daqui e dali, fica claro que mesmo os ensinamentos trazidos pelas crises anteriores foi insuficiente para preparar o mundo para novas crises.
Não haverá como a atual crise não afetar a economia real e o comércio mundial. O crédito secou no mundo. O volume de comércio será reduzido. A própria China terá que diminuir o ritmo de atividade econômica para enfrentar pressões inflacionárias.
O Brasil tem o conforto ainda de superávits comerciais sustentados pelos preços dos produtos primários, Mas jogou fora os dois momentos mais importantes da história contemporânea.
O primeiro, em 1994, quando a estabilização da economia permitiu o florescimento de um mercado de consumo popular reprimido. Esse processo se deu ao mesmo tempo em que as grandes multinacionais estavam realocando suas unidades de produção pelo mundo. E o Brasil, ao lado da China, seria um dos portos de atração desse investimento.
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Os chineses aproveitaram esse momento para um salto fundamental. Concentraram toda sua política de atração de investimentos para absorver tecnologia, meios de produção, novas indústrias. Apesar de possuir uma infra-estrutura precária, acenava com um mercado de consumo crescente e um mercado potencial extraordinário e, especialmente, uma política de câmbio competitivo e taxas de juros baixas.
Na partida do Real, os economistas provocaram uma apreciação da moeda, visando lucros no mercado de câmbio. Essa armadilha amarrou a economia brasileira, impediu-a de crescer e ganhar musculatura. A descompressão do câmbio, em 1999, trouxe algum gás para a economia, mas insuficiente para relançà-la.
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A segunda tragédia ocorreu no primeiro ano do governo Lula. Em 2002, a desvalorização cambial - fruto de crise internacional e da instabilidade política - permitiu entrar em 2003 com perspectivas inéditas de retomada de crescimento. Escapava-se da armadilha cambial. Milhares de pequenas e médias empresas passaram a buscar o mercado externo. O agronegócio explodiu. Ajudado pela expansão da liquidez internacional e do fator China, a economia mundial entrou em uma fase de expansão inédita.
Mas a política monetária de Antonio Palocci e Henrique Meirelles, avalizada por Lula, jogou fora a grande oportunidade. Com o câmbio apreciado, o produto brasileiro perdeu competitividade. A carga tributária aumentou, as exportações de manufaturados foram perdendo gás.
Aproveitou-se para reduzir a dívida externa brasileira, e o componente cambial na dívida pública. Graças aos preços das commodities, o Brasil entrou menos vulnerável na crise atual.
Mas vai sair dela como entrou, sem ter conseguido dar o grande salto de industrialização e desenvolvimento que teria conseguido, caso tivesse sido conduzido por estadistas nesses doze anos.
Ao final desse período, tem-se o maior processo de concentração de renda da história.
enviada por Luis Nassif
15/08/2007 16:14
Uma crise de solvência
Enviado por: João Carlos
Infelizmente, esta pode não ser uma crise passageira. Existem quatro fenômenos que estão se desenvolvendo independentemente que podem, atuando em conjunto, causar uma verdadeira catástrofe econômica a nível global. É possível que estejamos próximos de um evento de mudança de paradigma no contexto histórico, algo como a Revolução Francesa ou a queda do Muro de Berlim. Ou a crise de 29, que abriu caminho para Vargas no Brasil e a ascensão do nazismo na Alemanha. Vou tratar aqui apenas de um desses fenômenos, a presente crise financeira. Os outros fenômenos que estão atuando concomitantemente são a crise do défict público do governo dos EUA (leiam http://www.ft.com/cms/s/80fa0a2c-49ef-11dc-9ffe-0000779fd2ac.html) que pode terminar os dias do dólar como moeda de troca internacional, a rápida industrialização da China e o “Peak Oil”.
Em primeiro lugar, há as bolhas especulativas que agora atingem os mercados globais. Há pelo menos duas bolhas especulativas (possivelmente três) que agora estão estourando ou prestes a estourar. Há a bolha do mercado imobiliário americano, esta começou a estourar no ano passado. Vai levar muito tempo para esta bolha acabar de estourar. Bolhas do mercado imobiliário não desinflacionam rapidamente, precisa de vários anos antes da queda de preços do valor dos imóveis acabe. No Japão precisou de doze anos. No momento, nos EUA há um grande estoque de imóveis para vender e alugar, os preços vão continuar caindo. Por, pelo menos, mais dois anos.
A desinflação do valor dos imóveis deve atingir o consumidor americano de duas formas. A mais preocupante é o fato de que o consumidor americano usou o aumento do valor dos imóveis ao longo dos últimos 5 anos como forma de financiamento do consumo. Não houve aumento da média salarial durante o governo Bush, o consumidor hipotecava a casa para ter dinheiro para consumir e depois re-hipotecava a casa para pagar a hipoteca anterior e com o dinheiro que sobrava continuar a consumir. É um esquema financeiro que só funciona enquanto o valor dos imóveis continua a subir. O resultado é que, agora que o valor dos imóveis está caindo, não é possível refinanciar as hipotecas por um valor acima da hipoteca anterior. A diferença deve ser paga com redução de consumo. E muitas famílias simplesmente não estão conseguindo pagar a diferença, daí muitas hipotecas não estão sendo pagas. Esta é a razão porque muitas financeiras estão falindo nos EUA nesse momento, hipotecas não pagas. Cada semana, pelo menos uma financiadora está fechando as portas.
E só agora a crise imobiliária começou a atingir as construtoras. Devemos lembrar que projetos de construção são demorados, as construtoras tendem a tentar finalizar as obras mesmo sabendo que terão prejuízo. É preferível acabar um imóvel e tentar vendê-lo com prejuízo do que ter um prédio inacabado que vale nada. É por isto que o ramo de construção continuou ativo durante o último ano, após a bolha imobiliária ter estourado e o valor dos imóveis começar a cair. Mas agora as construtoras não estão começando novos projetos e existem construtoras falindo. Deveremos observar um aumento do desemprego nos EUA nos próximos meses. Esta vai ser a segunda forma pela qual o consumidor dos EUA vai ser afetado. Juntando os dois efeitos, o não-refinanciamento dos imóveis e o aumento do desemprego, o consumo nos EUA pode ser reduzido de forma considerável. Daí as preocupações com a Wal-Mart. E se o consumo nos EUA cair seriamente deve vir uma recessão.
Uma segunda bolha, no mercado financeiro, começou a estourar agora, o mercado de derivativos. Quem financiava imóveis utilizava o recurso da securitização para se capitalizar. O mercado de derivativos das hipotecas cresceu muito nos últimos anos, era uma verdadeira ciranda financeira, pois os ganhos eram muito altos. Mas, no momento, todas as hipotecas estão indo pro brejo, mesmo as “prime” não vão estar bem das pernas por muito tempo. E as securitizações das hipotecas não valem mais nada.
Por causa disto, muitos fundos de investimento, mesmo em regiões distantes dos EUA, estão em dificuldades financeiras. A crise começou com dois fundos na Austrália que fecharam. Ao longo da semana passada só piorou, com mais notícias de fundos fechando.
Aí os bancos centrais injetaram grana nos bancos no final da semana passada, aceitando títulos podres (securitização de hipotecas) como garantia. É o fato mais assustador nessa história!
Roubini está dizendo que esta não é uma crise de liquidez, mas uma crise de insolvência. Vou explicar melhor para vocês entenderem a gravidade da diferença. Os ativos dos bancos são a carteira de “devedores” que os bancos possuem. O negócio dos bancos é emprestar dinheiro e cobrar juro pelo principal. Os ativos são o principal emprestado e o lucro são os juros.
Já que hipotecas estão naufragando e securities também estão indo a pique, é de se esperar que as carteiras de hipotecas e a carteira de investimentos dos bancos também não estejam bem das pernas. Afinal de contas, financeiras (que faziam hipotecas) e fundos de investimento (que compravam securities das hipotecas) estão falindo. Em outras palavras, muitos ativos dos bancos simplesmente evaporaram. E quando o ativo é menor que o passivo, é falência.
Para quem prestou atenção, o SEC fez uma auditoria relâmpago nos bancos neste final de semana. Provavelmente para verificar a contabilidade, para ver o que eles estavam considerando como ativo quando na verdade já vale nada, é na verdade prejuízo. O fato é que, considerando o valor da injeção financeira que os bancos centrais fizeram, considerando as condições extremamente amigáveis de tais injeções e considerando como a SÉC atuou no final de semana, é possível que tenha pelo menos um banco que já tenha falido, mas os correntistas e os acionistas não estão sabendo. Os bancos centrais só estão tentando adiar o inevitável, pois se um banco falir agora vai começar uma corrida bancária e todo mundo cai. Estamos falando agora de uma calamidade próxima da crise de 29, resultado de toda esta insensatez do mercado financeiro dos últimos anos. É isto que o Roubini está falando quando diz que é uma crise de insolvência. Se for isto, esqueçam recessão, vai ser mesmo uma depressão.
Embora a crise financeira possivelmente afetará o Brasil, pois pode afetar o crescimento mundial, as três outras crises que estão se desenvolvendo independentemente provavelmente vão beneficiar nosso país. E como o Brasil deve escapar de uma possível quebradeira dos bancos, só vamos ser atingidos diretamente quando o comércio mundial diminuir devido à expansão global da possível recessão que pode estar vindo aí. A questão vai ser o “timing” das diferentes crises.
enviada por Luis Nassif
15/08/2007 07:00
As "bolhas" especulativas
Coluna Econômica – 15/08/2007
Dois indicadores deverão ser bem acompanhados na atual crise internacional: os de crédito e os preços de commodities. Os de crédito anteciparão os efeitos da crise sobre o crescimento mundial; os de commodities, sobre os preços dos principais produtos de exportação brasileiro. São os dois fatores capazes de influir na economia brasileira nos próximos meses.
O próprio fato de o dólar ter batido nos R$ 2,00 ontem revela, de um lado, o investidor brasileiro ainda muito escaldado das crises anteriores. Mas mostra que não dá para minimizar os efeitos da crise sobre a economia brasileira.
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Nos últimos quinze dias, as principais commodities metálicas registraram queda de até 20%, influenciadas principalmente pela crise imobiliária nos Estados Unidos. As previsões do FMI, de crescimento da economia mundial, e desaquecimento da americana, são muito precoces, feitas no epicentro da crise. Na verdade, continua todo mundo com o dedo no gatilho, aguardando mais novidades.
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O consultor André Delben Silva, da Advisor Asset Management, montou um modelo interessante de analise das ondas especulativas, a partir dos estudos da consultoria de investimentos Gavekal de Hong Kong.
A consultoria definiu quatro tipos de bolhas especulativas, a partir da combinação de quatro fatores. No plano dos recursos, o grupo de “bolhas” provindas de financiamento bancário; e aquelas que nascem no mercado de capitais. No plano das aplicações, as bolhas produtivas (que deixam saldo de novas tecnologias) e as não produtivas (em cima de ativos).
Na categoria “produtivas com empréstimos bancários”, situa a bolha das ferrovias americanas no século 19; “produtivas com mercado de capitais”, as bolhas tecnológicas dos anos 90; “improdutivas com empréstimo bancário”, a especulação imobiliária dos anos 80, financiada por bancos japoneses; “improdutiva com mercado de capitais”, a especulação com ouro nos anos 70
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Ponto interessante do trabalho é o processo de consolidação de falsas convicções que levou à bolha da Nasdaq. Tomando por base as avaliações do então presidente do FED (o Banco Central americano), a consultoria dividiu a especulação em três fases. Na primeira fase, do Ceticismo, em 1996, Greesnpan alertava para a “exuberância irracional” dos ativos. Na segunda fase, da Confiança (em 1998) manifestava fé na Nova Economia, e no crescimento sem precedentes dos EUA. Na terceira fase, em 2000, da Certeza, dizia que “é difícil negar que algo fundamentalmente mudou”. Essa fase, da Certeza, aconteceu pouco antes da “bolha” explodir.
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Há diferenças de agora em relação à crise da Rússia, em 1998. Economista-chefe do Banco Itaú, Thomas Malaga julga que, na atual crise internacional, a supervisão do BIS (o banco central dos bancos centrais) avançou muito, no campo da administração de risco.
Malaga não chega ao ponto de afirmar que a atual crise não terá repercussão na economia real. Muitos investidores irão pagar caro. Todos os indicadores de crédito apontam os bancos emprestando menos, afetando consumidores e investidores, o que deve influir no crescimento mundial. Mas não acredita em nada drástico.
De qualquer modo, o Departamento Econômico do Itaú reduziu a queda da taxa Selic para três reduções de 0,25 até o final do ano.
Para incluir na lista Coluna Econômica
enviada por Luis Nassif
14/08/2007 07:00
Os desdobramentos da crise
Coluna Econômica – 14/08/2007
Não estão claros os desdobramentos da crise financeira internacional atual.
No cerne do problema está a extraordinária liquidez internacional, isto é, um excesso de riqueza financeira que não consegue ser acompanhada pelo aumento da riqueza real - ativos, fábricas, etc. Com esse descompasso, os preços acabam subindo, subindo, no chamado "efeito bolha", até que uma hora explodem.
Nos últimos anos, esse excesso de liquidez tornou descuidados os grandes bancos internacionais. Passaram a emprestar dinheiro a torto e a direito, sem dispor de garantias adequadas. Em geral o investidor contraía um empréstimo para adquirir determinado ativo, e entregava esse ativo como garantia do empréstimo tomado.
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Esse endividamento (alavancagem, como se diz no mercado) ajudou a estimular ainda mais o jogo especulativo. Foi concedido crédito farto para o mutuário adquirir imóveis -próprios bens adquiridos.
A bolha começou a desinflar a partir do mercado de hipotecas nos EUA. Quando aumentou a inadimplência dos mutuários, houve queda no preço dos imóveis. Caindo, o valor dos imóveis passou a ser inferior ao valor do financiamento concedido. Mais que isso: os bancos costumavam emprestar, depois pegavam a carteira de recebíveis e vendiam no mercado para fundos de investimento, para poder captar mais recursos para emprestar mais ainda.
Quando o mercado começou a cair, muitos dos investidores também tinham tomado dinheiro emprestado para aplicar nesses fundos. Com as cotas dos fundos caindo, não apenas os mutuários como os cotistas dos fundos ficaram a descoberto - isto é, sem garantia para continuar rolando seus empréstimos.
A partir daí, criou-se um efeito-cascata. Quando determinado mercado vai mal, o investidor é obrigado às chamadas de margem - isto é, a aportar mais garantias nas bolsas onde está jogando. Para isso, é obrigado a vender ativos de outras bolsas para fazer dinheiro. Ao proceder assim, derruba essas demais bolsas, criando o efeito-cascata.
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Há dúvidas de monta pela frente. Se os fundos que aplicaram em papéis especulativos quebrarem, problema deles. Isto é, não haverá desdobramentos maiores, além dos prejuízos que provocarão nos seus cotistas.
A dúvida está no mercado de crédito, nos bancos que emprestaram para essas operações especulativas. Se o problema for muito grande e o número de bancos muito amplo, deixará de ser um problema individual e se terá, aí, uma crise sistêmica.
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Quais os desdobramentos? O que mantém a tranqüilidade externa do país é o montante de reservas cambiais em posse do Banco Central, a redução do passivo externo, o fato dos grandes grupos nacionais terem um pequeno passivo em dólares, e a dívida pública estar menos dolarizada.
Mas o ponto central são os superávits da balança comercial. Grande parte do aumento das exportações decorreu do aumento das cotações de commodities. Se os preços caírem e a quantidade se reduzir, e o superávit comercial cair muito, o jogo começará a ficar mais pesado.
Para incluir na lista Coluna Econômica
enviada por Luis Nassif
13/08/2007 14:24
O economista Dias Carneiro
Enviado por Arnaldo Carrilho
Meu caro Luis,
como não sou Economista, não voto, mas os nomes de Roberto Campos e Octavio Dias Carneiro não poderiam ser excluídos. Mario Henrique foi decerto um grande, mas os dois diplomatas citados tinham muito mais elevação cultural (filosófica e política).
Um foi aluno de Wassily Leontieff (Dias Carneiro), outro de Karl Polanyi (Campos). A Matemática e a Cultura da Economia irrigaram seus espíritos, já bem dotados em informação e conhecimento.
Já Gudin e Bulhões foram homens práticos, monetaristas exacerbados, o primeiro excluindo a industrialização, o segundo corifeu da Economia de mercado induzida pelas finanças públicas.
enviada por Luis Nassif
13/08/2007 11:27
A crise internacional – 2
Economia financeira x real
O que poderá afetar o Brasil, em caso de agravamento da crise internacional, são os componentes da economia real.
Para efeito didático, vamos dividir a economia em dois pólos: o financeiro, com seus componentes de juros e risco; e a economia real.
A crise do mercado financeiro se dá de duas maneiras. A primeira, através do efeito-preço. Com menos financiamento, o mercado se retrai e há uma queda nos preços dos ativos, sejam financeiros, seja na economia real (imóveis).
Por sua vez, a queda nos preços dos ativos financeiros obriga à “chamada de margem” (ou seja, depósitos da parte perdedora nas Bolsas, visando melhorar as garantias). Nessas chamadas, investidores são obrigados a vender posições que têm em outros mercados, para cobrir as perdas nesses primeiros mercados. Ao fazer isso, derrubam novos mercados, provocando o efeito-contágio.
Os efeitos sobre o mundo real são interligados. Tome o caso dos EUA. Com queda nos preços dos imóveis e dos ativos financeiros, o consumidor americano se sente mais pobre. Haverá uma queda de ritmo não apenas na construção civil como na aquisição de bens duráveis. Esse desaquecimento afeta igualmente os grandes exportadores para o mercado americano, como é o caso da China.
No caso do desaquecimento global, o Brasil seria afetado de duas maneiras. A primeira, com a queda no volume exportado de matérias primas. A segunda, com a queda nos preços das matérias-primas – que serão desinflados não apenas pelo desaquecimento global como pela menor atividade dos especuladores, em função da redução no mercado de crédito.
Sobre o mercado cambial, haverá dois efeitos. Um deles, a redução do fluxo de dólares que entra pelo mercado financeiro. Essa redução será benigna, pois permitirá uma desvalorização relativa do real, impedindo o aprofundamento da desindustrialização brasileira.
O risco maior é se a queda nos preços de commodities for tão acentuada que volte aos níveis de 2003. Nesse caso as contas externas brasileiras voltariam a ficar vulneráveis.
Tudo isso são hipóteses, possibilidades, mas que dependerão intrinsecamente da intensidade desse movimento de ajuste de ativos globais.
enviada por Luis Nassif
13/08/2007 07:00
O maior economista brasileiro
Coluna Econômica – 13/08/2007
Na sexta-feira passada, o jornal “O Valor Econômico” resolveu fazer uma eleição para o título de “mais importante economista do país”. Virou uma disputa ideológica. Os economistas tido por desenvolvimentistas votaram em Celso Furtado; os economistas de mercado em Mário Henrique Simonsen. Alguns votos esparsos para Octávio Gouvêa de Bulhões e Eugênio Gudin. Como havia mais economistas de mercado votando, venceu Simonsen.
Na verdade, o resultado foi definido por quem escolheu o colégio eleitoral. Mesmo assim é uma eleição interessante para definir os dois ícones de duas escolas de pensamento que historicamente dominaram o debate econômico no Brasil.
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A escolha, em todo caso, mostra como a classe dos chamados economistas de mercado não valorizam um de seus princípios prediletos: o institucionalismo – isto é, a criação de marcos legais, de instituições que permitam ao próprio mercado se desenvolver de forma apropriada.
Há duas maneiras de se avaliar um economista: por sua contribuição ao pensamento econômico; por sua contribuição às transformações da economia.
Simonsen era um economista brilhante, talvez o mais inteligente de sua geração. Mas não produziu um pensamento original, não agregou nenhuma contribuição efetiva ao pensamento econômico mundial, a não ser em itens referentes à inflação.
Já Celso Furtado produziu uma literatura abundante e relevante sobre a economia do terceiro mundo, além dos estudos sobre desenvolvimento regional e sobre história econômica do país. Teve papel fundamental para formatar o pensamento da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina) no anos 50. Tornou-se referência mundial,
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No plano institucional, Octávio Gouvêa de Bulhões e Roberto Campos mudaram a face do Brasil na segunda metade dos anos 60, ao consolidar o Banco Central, a reforma tributária, o sistema de correção monetária, reorganizar o mercado de capitais, criar o Banco Nacional da Habitação. Nesse período, Simonsen foi um assistente brilhante, mas de trabalhos encomendados pelos dois economistas, que – mesmo sem a inteligência do discípulo – tinham uma visão estratégica muito mais desenvolvida.
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Como Ministro da Fazenda, Simonsen foi medíocre. Não tinha disciplina para o dia a dia, a ponto do grande interlocutor na área econômica ser o presidente do Banco Central, Paulo Hortêncio de Pereira Lyra.
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Na análise da economia brasileira, faltava-lhe a visão sistêmica de um Antonio Delfim Netto – o grande concorrente dele como maior economista dos anos 70. Não basta conhecer a economia. É necessário conhecer o estado de espírito do empresário, as limitações do Parlamento, o tempo que leva uma reforma para maturar, uma mudança cambial para frutificar. Simonsen sempre foi um esteta, um matemático brilhante, um amante da música, que não gostava de conspurcar a teoria com dados fundamentais da realidade.
Por tudo isso, acho que a eleição de Simonsen está muito mais fruto de um modelo profissional a ser seguido – economista, ligado ao mercado (foi conselheiro do Citi), amante de óperas – do que a uma avaliação isenta sobre sua importância, comparada à de outros economistas de primeiro time.
Para incluir na lista Coluna Econômica
enviada por Luis Nassif
12/08/2007 21:31
A crise do "subprime"
A iniciativa do Banco Central do Japão de injetar um trilhão de ienes no mercado, mostra o grau de deterioração do sistema financeiro internacional, após a crise das hipotecas nos Estados Unidos. Depois que o BNP Paribas, da França, suspendeu os saques de dois fundos, constatou-se que a crise tinha atingido outros mercados. A próxima semana ainda será de amplo tiroteio.
Além do Japão, o Banco Central Europeu injetou US$ 130,6 bilhões no mercado, em função do efeito BPN Paribas. Além dele, outro fundo europeu, com 750 milhões de euros de ativos, também foi congelado, para evitar corrida dos investidores. O FED (BC americano) injetou US$ 24 bi e o Banco do Canadá US$ 1,64 bilhão. Não foi muito mas o Banco do Canadá sustentou que poderá aumentar, em caso de crise.
Esse efeito-cascata chegou a afetar até as ações do ABN Amro no exterior, depois do boato que o banco belgo-holandês Fortis estava encontrando dificuldades para obter empréstimo-ponte de 24 bilhões de euros para pagar a sua parte na compra do ABN Amro, cujas ações caíram 3,48%, depois de bater em queda de 9%. O Fortis, Royal Bank, Scotland (RBS) e Santander, ofereceram 71 bilhões de euros (US$ 97,24 bilhões) pelo ABN.
Segundo o consultor Nouriel Roubini, ex-conselheiro do presidente Bill Clinton, a atual crise é mais grave do que a de 1998, quando ofundo de hedge LTCM perdeu US$ 5 bi. Na época era uma crise de liquidez – ou seja, de falta temporária de recursos para atender os saques. Agora, segundo ele, é uma crise de solvência: ou seja, de falta de lastro para os empréstimos, o que tornaria o episódio bem mais grave.
No curto prazo, o Brasil deverá ser pouco afetado por essa crise. A Bolsa de Valores vai sentir e é possível que o dólar deixe de cair no mercado interno. Mas a economia brasileira só começaria a sentir se a crise derrubar as cotações de produtos primários brasileiros (como soja, minério de ferro, açúcar etc.), o que só ocorreria na hipótese de uma redução expressiva no crescimento da China. O que não está em cogitação agora, mas a médio prazo, sim.
enviada por Luis Nassif
12/08/2007 08:43
A Bolsa de Petróleo do Irã
Enviado por: Multifário
A Bolsa de Petróleo Iraniana, que desbancou os petrodólares como lastro da moeda americana, provocou a sua queda irrecuperável. Este fato crucial pouquíssima menção recebeu no jornalismo econômico, assim como nada se falou da suspensão do M3, o relatório do meio circulante mudial em dólares.
A Bolsa do Petróleo iraniana
O governo iraniano desenvolveu finalmente a arma "nuclear" final que pode destruir rapidamente o sistema financeiro a sustentar o império americano. Essa arma é a Bolsa Iraniana de Petróleo que se espera vir a abrir em Março de 2006. Estará baseado num mecanismo "euro-oil-trading" o que naturalmente implicará o pagamento do petróleo em euros. Em termos económicos, isto representa uma ameaça à hegemonia do dólar muito maior do que Saddam representou, pois será possível nesta Bolsa que qualquer um possa comprar ou vender petróleo em euros, podendo-se evitar assim completamente o dólar norte-americano para este tipo de transacção. Se assim for, passarão a existir razões para que quase todo o mundo passe a adoptar decididamente este sistema do euro-oil:
(...) Na redefinição da estrutura das suas reservas de dólares (os europeus) poderão optar pela manutenção de apenas uma parte dos seus dólares como reserva; uma outra parte poderá ser para alienar; e uma terceira parte poderão usar para realizar pagamentos futuros, tendo o cuidado de não aumentar mais as suas reservas em dólares mas, pelo contrário, ir consolidando as suas reservas em euros. Os russos têm um interesse económico inerente na adopção do euro e que tem a ver com a dimensão do comércio que desenvolvem com os países europeus, com os países exportadores de petróleo, com a China, e com o Japão. A adopção do euro terá como efeito imediato a facilitação das transacções comerciais entre os primeiros dois blocos, a Rússia e a UE, e com o passar do tempo facilitará o comércio com a China e com o Japão. Aparentemente os russos também não gostam de estar sujeitos a ter de guardar dólares que se vão desvalorizando, o que os tem levado ultimamente a ter um novo interesse pelo ouro. Os russos por outro lado, revivem na actualidade um forte nacionalismo, e se aderirem ao euro sabem que causarão dano grave aos americanos, pelo que o farão com prazer só para verem os americanos a sangrar. Os países árabes exportadores de petróleo adoptarão prontamente o euro como um meio de diversificar as suas crescentes reservas de dólares em desvalorização. Tal como os russos, as suas principais transacções comerciais são com países europeus, e por isso ambos preferirão a moeda corrente europeia para promoção da sua estabilidade e para evitar riscos de cambio; isto para não mencionar a sua jihad contra o Inimigo Infiel.
Apenas os britânicos se encontram entre a espada e a parede. Eles sempre tiveram uma associação estratégica com o EUA, assim como uma tendência natural para abandonar a Europa. No entanto já não existem razões para se manterem associados ao vencedor. Porém, quando virem em dificuldades o seu parceiro de longa data, será que continuarão ao seu lado ou pelo contrário lhe aplicarão o golpe de misericórdia? (...)
(...) [*] Doutorado em Economia pela Ohio State University. Actualmente ensina Macroeconomia e Finanças Internacionais na "American University" da Bulgária. Autor de "China's Great Depression", "Masters of Austrian Investment Analysis", "Austrian Analysis of U.S. Inflation", "Oil Performance in a Worldwide Depression" . Email: Krassimir_Petrov@hotmail.com
O original encontra-se
aqui.. Tradução de MJS.
enviada por Luis Nassif
11/08/2007 13:24
A crise internacional – 1
Ponto 1: a volatilidade dos ativos
Para analisar a crise financeira internacional, o primeiro passo é entender a extraordinária volatilidade que acabou contaminando o sistema de preços internacionais com o livre fluxo de capitais, as políticas cambiais frouxas e a enorme liquidez internacional.
Quando a maré está para cima, os ganhos criam um efeito-bolha facilmente.
Confira a tabela. Lá se mostra o efeito de dois fenômenos sobre os preços dos ativos: as taxas de juros internacionais e a apreciação do real.
Taxas Internacionais
Suponha uma empresa que renda US$ 101,86 por ano. Se as taxas de juros internacionais estiverem em 8% ao ano, o valor da empresa corresponderá ao valor presente, descontada à taxa de juros internacionais (e um adicional de risco, dependendo do país e do setor). No caso, tomando-se um prazo de 20 anos, a empresa valeria US$ 1.000,08.
Em outras palavras, quer dizer o seguinte: para conseguir US$ 101,86 por ano, durante 20 anos, a uma taxa de 8% ao ano, preciso depositar US$ 1.000,00 no banco.
Se a taxa de juros cair para 7%, o valor presente do investimento aumenta. Para obter os mesmos US$ 101,86 por ano, com uma taxa de 7% ao ano, o valor do investimento deverá subir para US$ 1.079,11 – uma elevação de 7,9%.
Se a taxa de juros internacional cair para 4%, só por conta dessa queda os investidores aceitarão pagar US$ 1.384,31 pela mesma empresa, rendendo os mesmos US$ 101,86.
Veja que apenas pelo efeito da queda dos juros internacionais de 8% para 4%, a mesma empresa, com o mesmo rendimento, teve um aumento de valor de 38,4%.
Esse movimento explica o extraordinário aumento dos ativos reais em todo mundo nos últimos anos.
Câmbio Brasil
Cada vez que um investidor traz dólares para o Brasil, ele ganha com a apreciação do real e perde com a desvalorização.
É simples. Com US$ 1.000,00 e o dólar a R$ 2,30, ele consegue converter em R$ 2.300,00. Se na hora de sair o dólar estiver a R$ 2,00, com os R$ 2.300,00 ele conseguirá adquirir US$ 1.150,00 – sem considerar os ganhos que teve aplicando os reais.
Compare que um investimento de US$ 1.000,00, com a taxa a 13% ao ano e o dólar a R$ 2,30, poderá significar um ganho de até 36,8% apenas pelo efeito da queda do dólar de R$ 2,30 para R$ 1,90.
Câmbio + juros
Agora junte os dois fenômenos. Em um caso extremo, um investidor que trouxe US$ 1.000,00, com as taxas internacionais a 8% e o dólar a R$ 2,30, poderá ter um ganho de quase 90% com a combinação da queda das taxas internacionais para 4% e do dólar para R$ 1,90.
São essas possibilidades que provocam movimentos de bolha.
A roda da fortuna
Agora inverta a mão.
Nas colunas da direita se mostra o efeito inverso: os juros internacionais (ou com risco Brasil) aumentando para 8% ao ano, o dólar indo de R$ 1,90 para R$ 2,30 e a rentabilidade do investimento interno caindo para 10%.
Há o risco do investidor perder até 31% do que investiu aqui.
Essa extrema volatilidade é elemento essencial para entender os movimentos-manada do mercado internacional.
enviada por Luis Nassif
11/08/2007 10:49
Por Dani Rodrik
Valor de 10/08/2007
O mais importante dilema de política enfrentado pelos mercados emergentes atualmente é o seguinte: por um lado, o crescimento econômico sustentado exige uma moeda competitiva (leia-se "subvalorizada"). Por outro lado, toda boa notícia é imediatamente seguida de apreciação da moeda, tornando a tarefa de se manter competitivo tão mais difícil.
Então, você finalmente aprovou aquela peça de legislação crucial? Seu partido fiscalmente responsável acaba de vencer a eleição? Ou suas exportações de commodities tiraram a sorte grande? Bom para você! Mas a apreciação da moeda resultante provavelmente provocará uma disparada insustentável no consumo, causará estragos no seu setor de exportação, gerará desemprego e esgotará o seu potencial de crescimento. O sucesso traz a sua recompensa na forma de punição imediata!
Em resposta, os bancos centrais podem intervir nos mercados de moeda para prevenir a apreciação, ao custo de acumularem reservas externas de baixo rendimento e de se distraírem do seu objetivo primário, a estabilidade dos preços. Esta é a estratégia adotada por países como China e Argentina.
Ou então o banco central deixa os mercados se moverem para onde quiserem, ao custo de provocar a ira do empresariado, dos trabalhadores e do resto do governo e, na verdade, de praticamente todos, menos da classe financeira. Esta é a estratégia conduzida por países como Turquia e África do Sul, que adotaram regimes de "metas de inflação" mais convencionais. A primeira estratégia é problemática porque é insustentável. A segunda é indesejável, pois compra estabilidade à custa do crescimento.
A importância de uma moeda competitiva para o crescimento econômico é inegável. Praticamente todos os casos de crescimento sustentável elevado têm sido acompanhados de uma taxa de câmbio real significativamente depreciada. Isto vale tanto para a Coréia do Sul e Taiwan, na década de 1960 e 1970, como para a Argentina atual. O Chile promoveu a sua transição para alta taxa de crescimento na década de 1980 apoiado numa expressiva depreciação. Desde a década de 1990, China e Índia receberam um enorme impulso das suas moedas subvalorizadas.
Estes são apenas alguns exemplos mais conhecidos. Observando a experiência de mais de 100 países, apurei na minha pesquisa que cada 10% de subvalorização acrescenta 0,3 pontos percentuais ao crescimento.
A subvalorização da moeda é um instrumento tão possante para o crescimento pelo simples motivo de que ela gera incentivos para os setores promotores de crescimento na economia. Ela aumenta a rentabilidade dos setores industrial e agrícola não-tradicional, que são as atividades com o maior nível de produtividade de mão-de-obra e que também apresentam as mais velozes taxas de aumento de produtividade.
Uma moeda subvalorizada permite que uma economia se integre à economia mundial sobre uma base de desempenho robusto nas exportações. Ela estimula a produção (e portanto, o emprego), ao contrário da supervalorização, que estimula o consumo.
Então o que devem fazer os formuladores de política? Primeiro, é importante compreender que o ajuste de uma moeda forte e altamente volátil não é problema de competência exclusiva do banco central. Apesar de o banco central arcar com uma boa parcela da responsabilidade, ele precisa do apoio de outras partes do governo, mais notadamente do Ministério das Finanças. Manter uma moeda competitiva requer um aumento na poupança interna em relação ao investimento, ou uma diminuição nos gastos nacionais em relação à renda. Caso contrário, os ganhos de competitividade seriam anulados pela inflação ascendente.
Isso significa que as autoridades fiscais têm uma grande responsabilidade: estabelecer uma meta de superávit fiscal que seja grande o suficiente para gerar o espaço necessário para a depreciação real do câmbio. A medida pode não ser popular, especialmente durante uma retração econômica. Mas ninguém tem o direito de se queixar da política de "moeda valorizada e alta taxa de juro" do banco central quando a política fiscal continua frouxa demais para permitir que as taxas de juros sejam reduzidas sem colocar em risco a estabilidade dos preços.
Existem outros instrumentos disponíveis para aumentar a poupança interna e reduzir o consumo, além do equilíbrio fiscal. As políticas de governo podem visar a poupança privada diretamente, por meio de iniciativas para poupar através de políticas previdenciárias e tributárias apropriadas. Mais importante ainda, as políticas podem desestimular os surtos de consumo puxados pelo crédito por meio da tributação dos ingressos de capital (no estilo do Chile) ou aumentando as exigências de liquidez dos intermediários financeiros. Há pouco a lucrar com a concessão de ingresso livre ao capital de curtíssimo prazo na economia.
Com essas políticas implantadas, a zona de conforto dos bancos centrais é ampliada de forma suficiente a permitir a expansão da política monetária. Igualmente importante, o banco central precisa sinalizar ao público que passou a cuidar da taxa de câmbio real, pois ela é importante para as exportações, a geração de emprego e o crescimento sustentável.
Isso pode ser feito sem anunciar um nível específico de meta para a taxa de câmbio. Existe uma enorme margem de manobra entre os extremos de fixar um nível específico de taxa de câmbio real e a renúncia a qualquer interesse na taxa de câmbio real. O banco central precisa ter uma opinião, atualizada de tempos em tempos, a respeito da margem de variação apropriada da taxa de juro, e a instituição deve sinalizar quando acreditar que a moeda estiver se movendo na direção errada.
Assim que as regras do jogo monetário incorporarem a taxa de câmbio real, e pressupondo que a política fiscal continue oferecendo apoio, os investidores poderão esperar por uma moeda mais competitiva e menos volátil no futuro. Isso significará mais investimento em setores negociáveis, mais emprego na economia como um todo e crescimento mais acelerado.
Você saberá que teve êxito quando o secretário do Tesouro dos Estados Unidos vier bater à sua porta dizendo que você é culpado de manipular a sua moeda.
Dani Rodrik é professor de Economia Política na Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade Harvard. © Project Syndicate/Europe´s World, 2007. www.project-syndicate.org
enviada por Luis Nassif
10/08/2007 07:00
O mercado de crédito de carbono
Coluna Econômica – 10/08/2007
Com os acordos sobre mudança climáticas, e a possibilidade de se vender o chamado "seqüestro de carbono", abriu-se um novo negócio no país, ainda pouco explorado pelas empresas. Por "sequestro" de carbonos se entenda tirar da atmosfera concentração de carbono, um dos principais fatores de aquecimento climático.
Anos atrás foi assinado o Protocolo de Kioto reconhecendo a influência humana nas mudanças climáticas e o papel de responsabilidades comuns, porém diversificadas.
Por esse modelo, decidiu-se dividir os países em dois blocos: os desenvolvidos e os emergentes. Os primeiros passaram a adotar metas de emissão de carbono. No início de cada ano, cada empresa recebe créditos de carbono que poderão ser utilizados no decorrer do período. Se ela ultrapassa sua cota, terá que adquirir cotas de terceiros.
A idéia básica por trás desse modelo de mercado é que induziria as empresas mais eficientes a adquirir os créditos das menos eficientes, diminuindo o custo financeiro total da redução do efeito estufa.
Aos países emergentes caberia o papel de vender seus créditos de carbono – ou seja, todos os ganhos com “seqüestro de carbono” provenientes de mudanças de métodos de produção.
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Hoje em dia, existem 158 projetos aprovados no âmbito da Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima, do governo federal, incumbido de fazer a primeira triagem do processo.
Através de metodologia científica, avalia-se de quanto será o "sequestro de carbono" decorrente do empreendimento. Desses projetos, há 19 de aterros sanitários. O aterro impede o metano de ir para a atmosfera. Há 48 de biomassa. A queima de álcool libera tanto CO2 (a substância que gera o carbono) quanto a queima de gasolina. Só que na produção de álcool, há um sequestro de carbono bem maior que na queima no motor.
Dezenove dos projetos são de PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas); cinco de energia eólica; três de hidrelétricas; dez de troca de combustível fóssil por energia renovável; 31 de suinocultura.
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Há um risco inicial, de preparar o projeto e submeter à Comissão. O projeto tem que ser validado por uma empresa certificadora. Depois de validado, é apresentado à Comissão. Aprovado, é registrado na ONU (Organização das Nações Unidas). Depois de um ano, se aprovado, permite negociar os créditos no mercado internacional.
Já existem bancos japoneses negociando créditos com o Japão e bancos europeus negociando com o mercado da União Européia. O empresário pode vender seus créditos menos antes de começar a gerar direitos. Nesse caso, o comprador compra com desconto.
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Prefeituras podem se beneficiar desse modelo, utilizando os créditos para construir aterros sanitários. Fabricantes de PCHs também, assim como usineiros e plantadores de cana. Uma PCHs, por exemplo, exige investimento de R$ 30 milhões, mas poderá obter 2,5% ao ano com crédito de carbono. Estima-se que, no caso de um suinocultor, os ganhos podem corresponder a 5% da receita.
Obviamente, ainda é uma atividade para empreendimentos maiores. Mas é um mercado que, no âmbito do governo, poderá resultar em bons recursos para o financiamento de políticas ambientais.
Para incluir na lista Coluna Econômica
enviada por Luis Nassif
09/08/2007 14:51
A crise mundial se alastra
Segundo o Financial Times, o BNP Paribas, na Fraça, impediu clientes de fazerem saques em alguns de seus fundos. O dinheiro bloqueado soma US$ 2,2 bilhões.
enviada por Luis Nassif
09/08/2007 09:42
As leituras políticas do caso Suzano
Enviado por: Andre Araujo
Essa operação tem vários ângulos complicados. Um deles é a abstenção de voto para aprovar a compra da Suzano dos dois nomes mais ligados ao mercado no Conselho de Administração, Fabio Barbosa do ABN Real e Roger Agnelli, da Vale.
Outro ângulo inusitado foi a percepção negativa sobre a operação em quase todos os analistas de mercado que acompanham regularmente o setor.
O terceiro ângulo foi a quebra da tradição da Petrobrás de não pagar ágio em aquisições, muito ao contrário. No caso da Ipiranga, existe uma ação de minoritários que representam 20% do capital apontando erros para baixo na avaliação dos ativos da Ipiranga, que beneficiam a Petrobrás.
O quarto ângulo é a quebra pela Petrob´ras de sua própria lógica estratégica no desenho do setor, trazendo confusão e intranquilidade aos outros players, o que a longo prazo vai ser negativo para a atração de novos investimentos privados.
Como a pasta mãe da Petrobrás, o Ministério de Minas e Energia está sem titular há meses e como o Conselho da Petrobrás é presidido pela Ministra Chefe da Casa Civil, uma notória anti-privatista, a moldura política do negócio é um sinal que será levado em conta nos centros decisórios fora do Brasil.
enviada por Luis Nassif
09/08/2007 09:39
A CC5 no banco dos réus
Esta semana, o Juiz Federal da 7ª Vara da Justiça Federal de Brasília – Novély Vilanova da Silva Reis, um dos mais relevantes juízes da Justiça Federal – acatou denúncia contra o ex-Diretor da Área Internacional do Banco Central, Gustavo Franco, por causa dos problemas provocados pelo chamado “esquema Araucária” – as autorizações especiais para uso das CC-5 (contas que permitiam a residentes transferir dólares para o exterior).
O ponto central foi a autorização adicional para que os correntistas não fossem identificados, atropelando a legislação em vigor
“O art. 12 da Carta-Circular 2677/98 estabelece que as instituições devem observar que as transferências destinadas a constituição de depósitos bancários no exterior, em nome do próprio remetente, devem ser informados o número da conta e o nome do estabelecimento depositário no exterior, para as movimentações classificadas como Capitais Brasileiros a Curto Prazo Disponibilidades no Exterior natureza fato 55000.
Todavia, não foi o que aconteceu nos registros dos lançamentos das operações CC5, encaminhados para análise. Em nenhum dos 37.239 registros ativos de remessas de recursos para o exterior com a finalidade de disponibilidades no exterior de capitais brasileiros a curto prazo foi encontrado números de contas correntes, dados de agências ou bancos depositários no exterior. A falta desses dados no sistema de monitoramento do Bacen inviabiliza as tentativas de rastreamento dos recursos no exterior por absoluta falta de informação quanto à inequívoca localização da conta e do banco no exterior do usuário do esquema CC5. Esta, aliás, será a grande dificuldade que o MPF terá para localizar o dinheiro remetido pelos Servidores Públicos Federais já identificados na base de dados”.
Diretores de câmbio de diversos bancos deverão ser indiciados também.
Constata o juiz: “As irregularidades não decorreram da edição de normas primárias pelo Conselho Monetário Nacional e pelo BACEN para regular a política cambial. Pelo contrário, essas normas vinham sendo aperfeiçoadas de modo que, na época dos fatos irregulares, já exigiam a completa identificação dos proprietários e da origem dos recursos remetidos para o exterior. 39. Como visto precedentemente, são legítimos os atos expedidos pelo Conselho Monetário Nacional e pelo BACEN dispondo sobre operações cambiais e transferências internacionais em reais.
A irregularidade é que as autorizações especiais concedidas às instituições financeiras/rés pelo Deptº. de Câmbio do BACEN, chefiado pelo réu José Maria, recomendavam não preencher (ou identificar), nos registros do SISBACEN, os campos referentes à instituição recebedora dos recursos, conta recebedora, cidade e país da instituição (fls. 1.194-207 e seguintes do 5º volume avulso). Com isso houve manifesta violação da Circular 2.677, de 10/04/1996, da Diretoria Colegiada do BACEN (fl. 2.588)”.
enviada por Luis Nassif
09/08/2007 07:00
A posição estratégica da Petrobrás
Coluna Econômica – 09/08/2007
Ontem apresentei na coluna as razões da Petrobrás para a aquisição da Suzano Petroquímica. Há outros enfoques relevantes que precisam ser considerados.
O Brasil tem estoque finito de capital. A Petrobrás tem desafios enormes de investimento, previstos inclusive no PAC (Plano de Aceleração do Crescimento). E estava cumprindo um papel relevante de coordenadora dos investimentos de grandes grupos privados nacionais.
No setor petroquímico, há um desenho histórico, desde a privatização. Por ele não se misturariam as funções de fornecedor de matéria prima e de processadores. A Petrobrás é a fornecedora universal. O segundo grupo ficaria sob controle de empresas privadas nacionais, tendo a Petrobrás como sócia.
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Ao se dispor a pagar pela Suzano Petroquímica 11,4 vezes o EBITDA, a Petrobrás atropelou essa lógica. Pelo valor oferecido, foi como uma chamada “oferta hostil”. De um lado, provocou um primeiro ruído no mercado, referente ao valor.
No setor, internacionalmente os preços costumam ser de 5 a 6 vezes o EBITDA. Em circunstâncias especialíssimas, sete vezes. Saltou-se de uma oferta inicial de R$ 2 bi para R$ 2,7 pela Suzano. Houve muitas reclamações dos investidores – especialmente os internacionais - em relação ao preço pago e à falta de transparência da operação – no caso, carência de informações sobre a importância estratégica da compra.
De outro, empatou-se um capital pesado em um investimento que não irá agregar um tostão à capacidade instalada do setor ou aos investimentos brasileiros.
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Ao que tudo indica, a idéia da Petrobrás foi a de consolidar o Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro). Havia dificuldade em atrair investidores, dada a dimensão do investimento – de cerca de US$ 8 a 9 bilhões.
Mas existem problemas de monta. Para que o pólo seja bem sucedido, haverá a necessidade da incorporação de um conjunto de empresas de segunda geração. A Unipar participa com a Suzano da Rio Polímeros; com a Brasken da Petroflex. Pelo acordo de acionistas, um dos lados tem direito de preferência de adquirir a participação do outro. Portanto, há um componente claro de risco para a Petrobrás nessa compra da Suzano. Se essa operação não for bem amarrada, a Petrobrás não conseguiria entrar na segunda geração como ator importante.
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Há algum tempo a Unipar adquiriu ativos da Dow Química, e anunciou a intenção de ser ator relevante na reestruturação do setor petroquímico, agora que foram resolvidos os problemas da sucessão do patriarca Paulo Geyer. Nesse arranjo, há o risco da Petrobrás comprar, mas não levar duas empresas importantes.
O segundo ponto é que a Petrobrás estava se tornando em uma grande articuladora do capital privado nacional – em um momento em que há grande risco de internacionalização dos grandes grupos.
Se a Petrobrás resolver assumir o chamado protagonismo do processo, é mais provável que grandes grupos nacionais que têm bala na agulha considerem mais seguro investir fora, tal a desproporção entre eles e a Petrobrás.
Em suma, há uma questão estratégica em discussão, que não pode ficar restrita à própria Petrobrás.
Para incluir na lista Coluna Econômica
enviada por Luis Nassif
08/08/2007 17:51
A petroquímica e a Braskem
Para José Carlos Grubisich, presidente da Braskem, a compra da Suzano Petroquímica pela Petrobrás atropela um dos princípios básicos que nortearam a privatização da petroquímica brasileira: a de que a Petrobrás não entraria novamente no setor, devido ao fato de ser a principal fornecedora de matéria prima. Lá atrás houve o compromisso de manter setor com liderança privada, diz ele. De repente, mudaram o script.
Para Grubisich, a alegação de Petrobrás de que não pretende controlar a operação é vaga. Nos últimos tempos a empresa passou a querer controlar alcooldutos, terminais e logística do álcool. Como o governo participa do seu Conselho Administrativo, para ele jogou-se verde para sondar a reação da opinião pública. Não havendo reação, a Petrobrás assumirá a operação da nova central petroquímica.
enviada por Luis Nassif
08/08/2007 16:51
Pretensão e água benta
Enviado por: Luiz Alberto Marques
Caro Nassif,
No último artigo de Alexandre Schwartsman, a arrogância e o desrespeito batem limites.
Mesmo não podendo ler o artigo do professor Oliveira Lima é certa as distorções de Schwartsman, que certo da incapacidade de fazer um debate de alto nível, preferiu inventar um tolo bonecão e bater nele.
Schwartsman parece desconhecer a moderna discussão macroeconômica. Parece ainda estar preso à discussão dos anos 70 sobre a Curva de Phillips, quando Velhos Keynesianos e Novo-clássicos ainda discutiam se mais inflação leva a mais emprego.
Essa formação defasada de Schwartsman faz com que ignore solenemente críticas modernas ao funcionamento da economia capitalista. Por isso, cita velhos clichês como o Mapa de escala um para um, já que desconhece as críticas quanto ao ambiente em que as decisões capitalistas são tomadas. Ou seja, a crítica de Oliveira Lima é que pessoas como Schwartsman fazem uma má abstração ao imaginar o conhecimento absoluto, que empresários sabem com certa precisão os dados de um novo empreendimento.
Mas tudo bem, dizem que dinheiro compra até amor sincero, porque não daria a pretensão de conhecimento à ignorantes.
Enviado por: Felipe
Curioso:
(1) Não leu o artigo do Oliveira Lima (eu li), mas tem certeza que o Schwartsman “inventou um bonecão” e aí critica;
(2) Diz que Schwartsman faz uma discussão dos anos 70, mas não leu o Lima dizer que há sim “trade-off” entre inflação e desemprego, crença dos anos 60, desmentida pelos fatos;
(3) Independente da crítica ao trade-off” inflação x desemprego ter sido feita há mais de 30 anos, ela ainda serve de base à formulação exitosa de política monetária;
(4) A moderna discussão econômica sobre o assunto (trabalhos do Woodford, Sevenson, etc, publicados há 2/3 anos) também não acredita no “trade-off”, que Lima diz acreditar (pena o autor do post não ter lido o artigo que quer defender);
(5) Diz que Schwartsman “desconhece a moderna discussão macroeconômica”, mas não diz quem, na “moderna discussão macroeconômica” defende inflação mais alta para crescer mais rápido (fora Lima no artigo que o autor do post não leu, mas acho que ele não qualifica para esta discussão);
(6) Diz que a analogia do mapa é clichê, mas não comenta (porque não leu o artigo de Lima) em que ele diz (não explicitamente, porque não conhece o clichê), que modelos simples são “epistemologicamente (uau, que sofisticado!) inadequados” para tratar realidades complexas, o que é uma bobagem epistemológica já destruída pelo Friedman (sempre ele) há muitos anos.
O que houve foi que Lima falou bobagem e Schwartsman mostrou que o rei está nu, mas tem gente que não quer ver isto.
enviada por Luis Nassif
08/08/2007 07:00
A crise externa e o Brasil
Coluna Econômica – 08/08/2007
Não é pessimista a visão de alguns dos principais bancos internacionais em relação à economia brasileira.
No “Forex Report” de um deles, são identificadas mudanças fundamentais na forma de atuar do Banco Central, a partir da alteração na composição da diretoria, meses atrás, saindo economistas extraordinariamente ortodoxos, dando lugar a operadores de mercado mais pragmáticos.
Como conseqüência, o BC decidiu retomar os cortes de 0,50 ponto na taxa Selic. Cortando as taxas em um ritmo mais acentuado, o BC passou a atuar sobre o fator que mais impacta o câmbio, segundo o relatório.
Como se sabe, os investidores externos comparam a rentabilidade interna com as aplicações em títulos da dívida brasileira lá fora. Se as taxas internas forem superiores, eles trazem dólares para cá. Nos últimos anos ganharam fortemente em cima de dois fatores: taxas de juros mais a valorização do real.
Com o dólar caindo abaixo de 2 reais e com a redução da taxa Selic, o BC se aproxima mais do nível de equilíbrio com as aplicações externas, diz o relatório.
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Segundo o Report, permanece a tendência de valorização do real, em função da conta capital (taxas de juros em queda, mas ainda altas) e da conta corrente. Por isso, o banco mantém a recomendação da instituição para que os clientes continuem tomando risco cambial. Mas alerta que, com a queda das taxas de juros, os generosos prêmios pagos pela exposição ao real, em breve chegarão ao preço justo. Prevê o dólar na faixa de R$ 1,75. A partir daí o BC deverá ampliar os cortes da Selic para 0,75.
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Segundo o banco, a economia brasileira está menos exposta aos riscos do mercado “subprime” de hipotecas nos EUA. Aponta como sinais o patamar recorde de reservas (US$ 156 bilhões), o crescimento do PIB convergindo para 4,75% até o fim de 2007; o quinto ano consecutivo de superávit em conta corrente, apesar da valorização do real.
O relatório sugere menor exposição ao CDI (aplicações de renda fixa) e uma aumento dos investimentos em ativos de risco. Pela ordem, recomenda ações, câmbio e fundos multimercado. Para renda fixa, a recomendação é de neutralidade. Não recomenda papéis corrigidos pela taxa de inflação.
As ações brasileiras
O relatório considera que ainda há espaço para a valorização das ações no país. Há uma medida de valor (a relação preço da ação dividida pelo lucro anual) que é de 10 vezes – bem menos do que em outros países emergente Além disso, é um dos poucos emergentes em que nem as taxas de juros locais caíram na proporção justificada pela queda dos “yields” (taxas de juros em dólares da dívida externa soberana), nem o crescimento do PIB real respondeu por completo à redução das taxas de juros.
Ainda é uma incógnita se a valorização das ações será resultado da apreciação do real ou do aumento de preços em reais (resultado do crescimento). Mas as duas pontas ainda são favoráveis.
Os setores mais recomendados são os seguintes:
• Financeiro
• Bens de consumo duráveis
• Bens de consumo não duráveis
• Materiais
Para incluir na lista Coluna Econômica
enviada por Luis Nassif
07/08/2007 07:00
A nova petroquímica
Coluna Econômica – 07/08/2007
A consolidação da petroquímica brasileira avançou um pouco mais, com a compra da Suzano Petroquímica pela Petrobrás. O valor foi expressivo: US$ 1,4 bi, equivalente a dez ou onze vezes o EBITDA (lucros, antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Mas está embutido aí o valor estratégico da companhia, para a consolidação do Pólo Petroquímico do Sudeste.
Algumas semanas atrás, a Petrobrás entrou em contato com a Unipar e a Suzano, sugerindo que uma adquirisse a outra para, depois, poder se associar à empresa na constituição do pólo.
Nos últimos anos, a Unipar havia se enredado em uma pesada briga societária, que praticamente paralisou as decisões. Meses atrás conseguiu certa estabilidade, com a união de três herdeiros contra outros dois herdeiros, garantindo um controle precário sobre a companhia. Coube à Unipar o primeiro lance, oferecendo US$ 900 milhões pela Suzano. Os controladores não aceitaram, inclusive porque tinham a intenção de liderar o processo. Mas havia divergências com a Petrobrás, quanto ao modelo de gestão que seria adotado.
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No meio das negociações, dez dias atrás a Petrobrás apresentou à Suzano a proposta considerada irrecusável pelos seus controladores. Nesse ínterim, a Petrobrás iniciou conversações rápidas com a Unipar, chegando a um acordo, segundo me relatou Paulo Roberto Costa, diretor de abastecimento da empresa. Pelo acordo, a Unipar concorda em aportar seus ativos à nova central, recebendo como contrapartida ações da nova empresa.
Consolidado esse segundo movimento, é intenção da Petrobrás atrair outros investidores, inclusive financeiros, para não ter maioria de capital. Mas já informou que controlará a operação.
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Segundo Costa, a nova central vai focar apenas os termoplásticos, a cadeia do polipropileno e polietileno – da qual a grande concorrente é a Brasken, do grupo Odebrecht.
Em polietileno, a nova Central terá três empresas produzindo, somando 1,8 bilhão de toneladas ano. Com Camaçari e Pólo do Sul, a Brasken produz 1,865 bilhão. Em polipropileno, a Central do Sudeste mais Suzano irão produzir 1,7 bilhão de toneladas, contra 1,05 bi da Brasken.
Haverá equilíbrio entre as duas companhias. Segundo Costa, com esse movimento encerra-se o processo de consolidação da petroquímica brasileira, esfacelada no processo de privatização. Saiu-se do modelo tripartite anterior (1/3 de capital estatal, 1/3 privado nacional e 1/3 de privado estrangeiro) para uma venda de pedaços de empresa, destruindo a lógica das centrais de matéria-prima, que exigem integração e escala.
A intenção, agora, será desenvolver dois grupos com capacidade de competir no mercado internacional em termos de escala, tecnologia e produtividade.
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No fundo, a compra reflete a nova etapa da Petrobrás. Com o extraordinário crescimento dos últimos anos, a empresa passou a ter enorme lista de projetos que refletem o desenvolvimento dos diversos grupos internos. Tem o grupo que quer retomar a presença da empresa na petroquímica; o grupo que aposta no álcool, gás, eletricidade. E o Brasil ficou pequeno demais para o tamanho da empresa.
enviada por Luis Nassif
06/08/2007 07:00
O Brasil e as mudanças climáticas
Coluna Econômica – 06/08/2007
A questão das mudanças climáticas entrou definitivamente na pauta dos cientistas brasileiros. Até 1996 não havia pistas de que o clima estaria mudando. Naquele ano, Eduardo Assad, principal especialista da Embrapa, chegou a escrever artigo negando a existências das mudanças climáticas, conta ele.
Aí começaram a ser publicados os relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas), da ONU, sobre mudanças climáticas, o primeiro saindo em 1990.
Os primeiros relatórios apontavam alterações climáticas causadas por efeitos naturais. Mas havia algumas pistas fortes de efeitos antropogênicos (provocados pelo homem), como o gás do efeito estufa.
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Com o relatório de 2001, os climatologistas juntaram dois modelos de análise, de temperatura e de chuvas, e ficou evidente o efeito da mão do homem no aumento da temperatura nos últimos cem anos.
A partir daí, houve mudança de posição entre os cientistas brasileiros. A análise temporal mostrou que nos Trópicos houve aumentos de temperatura de cinco ou seis pontos, e de temperatura mínima de 2 graus Celsius.
Algumas vozes céticas continuaram não acreditando nas mudanças climáticas porque analisando apenas o meio físico, mas não o biótico – as plantas “respiram” e tiram CO2 da atmosfera. Nos últimos dez anos, começaram a aparecer evidências mais fortes desse efeito biótico.
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Até fevereiro deste ano, o cenário mais pessimista apontava para a possibilidade da temperatura global aumentar de 5,8 graus cem anos. Esse horizonte começou a reduzir. Recentemente o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) preparou relatório onde regionaliza a previsão de temperatura. Na maioria dos biomas (conjunto de comunidades) da Amazônia, o aumento deverá ser de 4 a 6 graus centígrados.
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O trabalho da Embrapa consistiu em replicar esses modelos para a agricultura, sabendo que quando o aumento de temperatura atingir 3 graus, muitas plantas serão prejudicadas. A emissão de gás de efeito estufa é a que tem maior concentração de CO2. A partir de 500 PPMs (Partícula por Milhão), essa concentração mata plantas. Hoje está em 380 PPMs, crescendo 2,5 PPMs por ano.
Haverá mudanças na matriz de produção agrícola. Café e soja serão as plantas mais afetadas... se não houver melhoramentos genéticos e medidas mitigadoras.
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Segundo Eduardo Assad, o que é uma ameaça para o mundo, poderá ser uma oportunidade enorme ao Brasil.
O primeiro passo consiste em aproveitar melhor as oportunidades abertas pelos Protocolos de Kioto, e pelo mercado de crédito carbono (no qual a empresa que “captura” carbono da atmosfera pode “vender” esse direito para outra que adquire para poder poluir).
O Brasil tem 20 milhões de hectares com plantio direto (aquele em que não se ara a terra), processo único no mundo, porque permite duas safras por ano limpando a atmosfera continuamente.
Existem 100 milhões de hectares de pastos degradados que, à medida em que forem recuperados, têm enorme capacidade de seqüestro de carbono, através da integração pastagem/lavoura. Pode-se dobrar a produção de grãos sem ampliar a fronteira agrícola.
Rede científica - 1
O meio científico brasileiro conseguiu montar uma rede respeitável para analisar as implicações das mudanças climáticas e identificar as vulnerabilidades da agricultura brasileira. Há uma plataforma básica juntando a Embrapa, Unicamp, USP, INPE analisando a vulnerabilidade das culturas, a adaptabilidade e a mitigação dos estragos. Depois, identificando quais os melhores sistemas em quais regiões
Rede científica – 2
Há consenso de que o café acabará saindo de São Paulo, substituído pela cana-de-açúcar. A pesquisa agrícola brasileira terá que sair da primeira geração para a segunda geração. Os estudos analisam a fenologia da planta e a probabilidade de, no pior evento climático já registrado, o que poderá prejudicar a produção. A análise contempla 31 culturas e 680 zoneamentos agrícolas, e é renovada anualmente.
Rede científica - 3
Segundo Hilton Silveira Pinto, da Unicamp, esses estudos permitiram desde 1995 um zoneamento de riscos climáticos para a agricultura, que indica aos agricultores quando e o quê plantar. Esse zoneamento transformou-se em política pública do Ministério da Agricultura, em referência para os financiamentos do Banco do Brasil e do Pronaf e para o seguro rural. Os estudos garantem 80% de margem de acerto.
Rede científica - 4
A Unicamp acaba de fechar acordo com CPTEC (Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos) para montar cenários regionais brasileiros. Serão feitas simulações a cada 50 km2, para avaliar o que irá acontecer com o Brasil nesse quadro de aumento da temperatura. Os estudos estão sendo financiados pela embaixada britânica. São trinta unidades, com 60 pesquisadores e 78 estagiários e bolsistas sendo formados.
Para incluir na lista Coluna Econômica
enviada por Luis Nassif