17/08/2007 07:00
A crise e o superávit comercial
Coluna Econômica 17/08/2007
Há dois fatores capazes de atrapalhar as contas externas brasileiras. O primeiro, a redução nos preços dos principais commodities de exportação (complexo soja, minérios, açúcar etc). O segundo, a queda na quantidade exportada.
O primeiro fator depende do nível de atividade e do comércio mundial e também dos investimentos dos fundos especulativos. O segundo depende da atividade mundial. Ambos atividade e comércio serão afetados pela crise econômica atual.
***
A primeira peça desse desaquecimento está na economia americana. Com a queda nos preços dos imóveis e a crise do crédito, o consumidor americano estará muito menos propenso a consumir nos próximos anos. Embora as previsões apontem para um crescimento, ainda que modesto, do PIB americano, o consumo deverá registrar a primeira queda em 17 anos.
Essa queda impactará todos os países exportadores, particularmente a China. Com menor demanda, o ritmo de crescimento da China deverá se reduzir e, com ele, o consumo e as cotações dos principais commodities mundiais.
***
Aí entra o Brasil. Nos últimos anos os superávits da balança comercial foram sustentados pela explosão no consumo de commodities. Em 2003, com o real desvalorizado e a economia mundial se acelerando, havia amplo espaço para uma ampliação das exportações de produtos manufaturados e semi-manufaturados com componentes tecnológicos.
Em 2003 e 2004 muitas pequenas empresas conseguiram espaço no mercado mundial, vendendo produtos com algum valor tecnológico similar aos líderes de mercado, e a um preço bem menor graças ao câmbio. Com a apreciação cambial, esse sopro exportador se reverteu e o país voltou a depender fundamentalmente das commodities.
***
Vamos a um pequeno exercício numérico em cima da balança comercial de julho. No total, o superávit comercial (exportações menos importações) foi de US$ 3,35 bilhões. As exportações de produtos básicos e semimanufaturados somou US$ 6,782 bilhões.
Pedi ao Departamento Econômico da Agência Dinheiro Vivo que simulasse de quanto seria a queda nas vendas de acordo com algumas hipóteses de redução de preços e de quantidade. A análise englobou os dez primeiros itens de exportações de básicos, somando US$ 3,3 bilhões.
Se ocorrer uma queda de 10% nas cotações desses produtos, e 10% na quantidade vendida, haverá um baque de 19% nas exportações. Ou, estendendo a análise para o universo dos básicos e semimanufaturados, US$ 1,3 b ou 38% do superávit do mês. Se as cotações caírem 15% e o consumo 10%, a queda corresponderá a 48% do superávit comercial.
Não se levou em conta eventual queda nas exportações de industrializados, cujo maior mercado são os Estados Unidos e América Latina. De qualquer modo, a conta vale como noção de valor.
***
Com a queda do superávit comercial, as contas externas brasileiras que dependem de outros itens poderão ficar apertadas. O desafio, agora, consistirá em permitir a rápida desvalorização do real para tentar recuperar o terreno perdido na indústria de transformação.
Para incluir na lista Coluna Econômica
enviada por Luis Nassif
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado ::
(O que é isso?)