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17/08/2007 21:56

O pico do petróleo

Enviado por: Almeida

Prezado Sr. Nassif,

O autor do texto postado, senhor João Carlos, menciona o fenômeno do "peak oil', ou Pico do Petróleo, para tornar mais familiar a expressão que designa o acontecimento da estagnação e posterior declínio da produção de petróleo.

Ele cita comparações da crise que antevê nos próximos anos com acontecimentos históricos da magnitude da Revolução Francesa ou a Grande Depressão. Talvez o declínio do dólar e a industrialização da China sejam fenômenos comparáveis aos eventos citados.

O que se antevê como o Pico do Petróleo não tem precedentes. Poderíamos traçar um paralelo com o que ocorreu no Império Romano após a invasão dos povos bárbaros, mas este não foi um acontecimento abrangente de toda humanidade. O Pico do Petróleo será uma crise de paradigma da civilização.

Como a discussão de fenômeno tão grave é ínfima na mídia global e na brasileira em particular inexistente, passo a fazer uma apresentação do assunto.

O Pico do Petróleo

A extração mundial de petróleo atingirá um apogeu nos próximos anos, um patamar de produção que não se repetirá mais na história. Esta é a conclusão de notáveis geólogos e homens vinculados a esta indústria. O petróleo convencional, óleo não classificado como pesado e extraído em terra firme ou águas relativamente rasas já alcançou este patamar; a produção agora depende cada vez mais do petróleo não convencional; óleos pesados ou obtidos em águas profundas, em áreas polares, de xistos e areias betuminosas, enfim, por técnicas que o tornam mais caro. Uma nova crise do petróleo se avizinha diferente das anteriores, que tinham origem na política; a nova deriva de causa natural, o homem está atingindo o limite da geologia do petróleo. Será crise da principal fonte de energia primária consumida pela humanidade. Crise também de uma civilização baseada em combustão fóssil, que terá de buscar solução para o declínio da principal fonte fóssil, e se confrontar com o dilema dos limites para a sua presença na terra.

O petróleo não tem um substituto com todas as suas qualidades, este é o complicador do problema; não se vislumbra alternativas tecnológicas competitivas em custo com ele, todas necessitam que o petróleo suba de preço para competir. O petróleo assumiu a primazia como energético por suas virtudes; desbancou o carvão e por muito tempo limitou o espaço para participação do gás natural no mercado de energia; isto porque seus custos são baixos; sua versatilidade permite tecnologia mais simples para transportá-lo e aproveitar onde se fizer necessário. O petróleo responde por 37% da energia primária consumida, carvão e gás natural juntos por mais 50%; estes últimos, devido aos custos e tecnologias disponíveis, são os candidatos mais próximos a substituir o petróleo. Mas. os candidatos a substitutos são também recursos finitos, tenderão ao esgotamento mais rápido na medida em que forem usados mais intensamente. A civilização combustível estará apenas se enganando com paliativos para fugir ao dilema que a confronta.

A produção de óleo em um dado momento é resultante do que é extraído de um conjunto de poços que estão em diferentes fases de produção, alguns deles estão em declínio e, se quisermos que a produção do conjunto se estabilize ou mesmo cresça, é necessário que novos poços entrem em produção para compensar a depleção dos poços antigos e atender a demanda suplementar. Para satisfazer a demanda projetada para 2015 no mundo, por exemplo, calcula-se uma capacidade nova de produção de 40 milhões de barris por dia; é mais do que a OPEP produz; é quase metade da extração de hoje. A maior parte dessa capacidade nova será para atender a depleção dos poços atuais. O volume das descobertas nos últimos anos e a tendência de queda nos próximos não dá certeza de se alcançar essa capacidade. Quando não tivermos capacidade nova suficiente para cobrir a depleção da capacidade, terá passado o pico.

O fenômeno foi descrito pela primeira vez pelo geofísico americano Marion King Hubbert.. Ele era um notável cientista quando foi trabalhar na Shell nos anos 40 do século passado. Reunia conhecimentos práticos da geologia do petróleo com contribuições teóricas importante no campo da Geofísica. Foi um homem polêmico, teve militância no Movimento Tecnocrático, onde defendia tese sobre a economia com base na energia, se contrapondo a visão financeira desta. Em 1949, quando o EUA era simultaneamente o maior produtor, exportador e consumidor de petróleo, ele fez a primeira e estarrecedora observação de que a era do combustível fóssil teria uma duração breve. Ainda trabalhando na Shell, em 1956, apresenta em público trabalho prevendo que a produção de óleo nos chamados US-48, o território americano ao sul do Canadá, atingiria um pico entre 1966 e 1971. Inicialmente ele foi desestimulado a apresentar esse trabalho, afinal trabalhava numa companhia de petróleo, ele mostrava um futuro de estagnação e queda no negócio da companhia, isto soava a falar de corda em casa de enforcado. Depois foi menosprezado e ridicularizado pela sua previsão, ainda se vivia na euforia do óleo barato. Mas, desde 1971 a produção daqueles 48 estados está em declínio. A curva que descreve o fenômeno é conhecida como a Curva de Hubbert e teve sua validade científica aceita pela academia de ciências americana em 1978.

Se numa província tão grande e tão rica em petróleo como a área dos US-48 , que ainda faz do EUA o terceiro maior produtor, o fenômeno se verifica há 35 anos; se neste mesmo período em outros 30 países, inclusive da OPEP, o pico foi atingido e a produção vem caindo; então um dia chegará ao conjunto de todas as províncias de óleo no mundo da mesma forma. Não será o fim do petróleo, será o apogeu e a conseqüente queda. O declínio do número de descobertas é a principal evidencia de que o pico está próximo, o volume de óleo descoberto cai desde o pico atingido em 1964, ano em que foi descoberto três vezes mais óleo do que o consumido. Desde 1980 o consumo supera cada vez mais as descobertas, superando estas em várias vezes atualmente. Em 2005 foram achadas reservas suficientes para apenas dois meses de consumo. Não há um consenso de quando acontecerá o pico, as estimativas giram em torno de 2010, há quem diga que pode ocorrer neste ano.

Os problemas econômicos com o esgotamento do petróleo começam quando ele atinge o apogeu. Se não houver produção para satisfazer a demanda os preços do óleo subirão, mas isto não implicará na subida da oferta, pois ela estará no limite, a escassez será permanente obrigando a utilização de outros energéticos. Os preços altos serão necessários para viabilizar a transição para outras fontes de energia intrinsecamente mais caras, situação vivida nas crises passadas, que deflagrou vários programas de substituição do óleo ou de economia de energia, mas aqui as comparações param. Eventual diminuição da procura de óleo será acompanhada pela queda de produção, não dependerá mais da razão política o desbloqueio da oferta. Forçar a queda do preço do óleo inviabilizará o esforço da transição, foi o que se viu após a queda dos preços do óleo nos anos 80, quando se voltou ao esbanjamento de energia e programas para substituição foram para o ralo, ou passaram por grandes dificuldades. Com o pico do petróleo uma era de energia barata estará encerrada.

Algumas conseqüências podemos facilmente antever, elas se espalharão por toda cadeia produtiva, citarei duas de forma breve. O transporte atual é dependente de óleo em mais de noventa e cinco por cento das suas aplicações, nos casos intercontinentais ou de longo curso a dependência é cem por cento. A distribuição produtiva globalizada atual enfrentará óbices. A produção e distribuição de alimentos enfrentará problemas para abastecer mais de seis bilhões de pessoas. Há uma relação grande entre as calorias de alimentos e as calorias de petróleo que usamos para a produção agrícola moderna, subir o preço do óleo implicará subir o preço dos alimentos, ou comprometer sua produção.

Fico por aqui. Há muitos aspectos para discutir, se desejar envio-lhe informações mais detalhadas. Grato pela atenção e divulgação.

enviada por Luis Nassif






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