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22/08/2007 07:00

Porque desvalorizar o real

Coluna Econômica – 22/08/2007

Anos atrás fui a um evento na Federação das Indústrias de Santa Catarina. Lá, foi apresentado o caso da Marisol, uma indústria têxtil catarinense que tinha montado uma rede de lojas em todo o Oriente Médio. Estava exportando seus produtos – roupas para crianças – e pensava em transformar as lojas em ponto de vendas de outros produtos brasileiros.

Ontem, li nos jornais que a Marisol fechou algumas fábricas, despediu 800 empregados e resolveu implantar um método Toyota de redução de custos. Não resistiu ao dólar barato, nem nas exportações nem no mercado interno. Provavelmente, vai continuar bolando produtos por aqui, mas terceirizar a produção para a China.

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O caso Marisol é emblemático da perda de rumo da economia brasileira. Há vários modos da economia crescer. Em um mundo globalizado, com as economias nacionais cada vez mais abertas, enfrenta-se uma competição cerrada com o exterior. Se uma empresa perde competitividade, é derrotada não apenas no mercado externo, como no interno.

Além disso, as empresas expostas à competição externa se constituem na vanguarda das inovações em qualquer economia. Elas puxam a inovação, a criatividade, os novos métodos de produção, a melhoria da qualidade.

Justamente por isso, todos os grandes movimentos de desenvolvimento modernos tiveram por base a competição no mercado externo. E, como primeiro passo, uma moeda competitiva. Isto é, um câmbio desvalorizado.

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Foi assim com a Alemanha, Itália e Japão no pós Guerra, com a Coréia nos anos 60, com a Itália nos anos 90, com a China. O câmbio desvalorizado serve para compensar as vulnerabilidades iniciais da economia. Não há infra-estrutura, o sistema tributário é inadequado, não há condições para investir em alta tecnologia? É a moeda desvalorizada que permite ao produtor interno colocar um produto lá fora tendo como vantagem o preço mais barato.

Em 2003, logo após a grande desvalorização cambial de 2002, centenas de pequenas empresas brasileiras passaram a competir com produtos com componentes tecnológicos, valendo-se do fator preço. Ofereciam quase a mesma coisa dos líderes de mercado a um preço muito menor.

Se a desvalorização cambial tivesse se mantido, elas aumentariam suas vendas, seus lucros. E, em um segundo momento, passariam a investir em mais tecnologia, inovação, galgando a escala de qualidade dos produtos globais.

Esse movimento – o mesmo que levou a Marisol a montar sua rede no Oriente Médio – foi abortada pela revalorização do real, promovida pelo governo Lula na gestão Antonio Palocci, e que prosseguiu na gestão Guido Mantega.

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Com a apreciação cambial, apenas os grandes grupos, que atuam em áreas de matéria-prima, conseguirão competir. O conjunto da economia perde. Todos os países que se desenvolveram – desde a Inglaterra, no início da Revolução Industrial – tinham por princípio importar matéria prima e exportar produtos acabados.

Agora, quando a crise ameaça corrigir os erros do câmbio, é bem provável que, passado o maremoto, o Banco Central volte a apreciar o real, dentro de sua missão pertinaz de matar o futuro.

Para incluir na lista Crônica Semanal

enviada por Luis Nassif






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