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15/08/2007 16:14

Uma crise de solvência

Enviado por: João Carlos

Infelizmente, esta pode não ser uma crise passageira. Existem quatro fenômenos que estão se desenvolvendo independentemente que podem, atuando em conjunto, causar uma verdadeira catástrofe econômica a nível global. É possível que estejamos próximos de um evento de mudança de paradigma no contexto histórico, algo como a Revolução Francesa ou a queda do Muro de Berlim. Ou a crise de 29, que abriu caminho para Vargas no Brasil e a ascensão do nazismo na Alemanha. Vou tratar aqui apenas de um desses fenômenos, a presente crise financeira. Os outros fenômenos que estão atuando concomitantemente são a crise do défict público do governo dos EUA (leiam http://www.ft.com/cms/s/80fa0a2c-49ef-11dc-9ffe-0000779fd2ac.html) que pode terminar os dias do dólar como moeda de troca internacional, a rápida industrialização da China e o “Peak Oil”.

Em primeiro lugar, há as bolhas especulativas que agora atingem os mercados globais. Há pelo menos duas bolhas especulativas (possivelmente três) que agora estão estourando ou prestes a estourar. Há a bolha do mercado imobiliário americano, esta começou a estourar no ano passado. Vai levar muito tempo para esta bolha acabar de estourar. Bolhas do mercado imobiliário não desinflacionam rapidamente, precisa de vários anos antes da queda de preços do valor dos imóveis acabe. No Japão precisou de doze anos. No momento, nos EUA há um grande estoque de imóveis para vender e alugar, os preços vão continuar caindo. Por, pelo menos, mais dois anos.

A desinflação do valor dos imóveis deve atingir o consumidor americano de duas formas. A mais preocupante é o fato de que o consumidor americano usou o aumento do valor dos imóveis ao longo dos últimos 5 anos como forma de financiamento do consumo. Não houve aumento da média salarial durante o governo Bush, o consumidor hipotecava a casa para ter dinheiro para consumir e depois re-hipotecava a casa para pagar a hipoteca anterior e com o dinheiro que sobrava continuar a consumir. É um esquema financeiro que só funciona enquanto o valor dos imóveis continua a subir. O resultado é que, agora que o valor dos imóveis está caindo, não é possível refinanciar as hipotecas por um valor acima da hipoteca anterior. A diferença deve ser paga com redução de consumo. E muitas famílias simplesmente não estão conseguindo pagar a diferença, daí muitas hipotecas não estão sendo pagas. Esta é a razão porque muitas financeiras estão falindo nos EUA nesse momento, hipotecas não pagas. Cada semana, pelo menos uma financiadora está fechando as portas.

E só agora a crise imobiliária começou a atingir as construtoras. Devemos lembrar que projetos de construção são demorados, as construtoras tendem a tentar finalizar as obras mesmo sabendo que terão prejuízo. É preferível acabar um imóvel e tentar vendê-lo com prejuízo do que ter um prédio inacabado que vale nada. É por isto que o ramo de construção continuou ativo durante o último ano, após a bolha imobiliária ter estourado e o valor dos imóveis começar a cair. Mas agora as construtoras não estão começando novos projetos e existem construtoras falindo. Deveremos observar um aumento do desemprego nos EUA nos próximos meses. Esta vai ser a segunda forma pela qual o consumidor dos EUA vai ser afetado. Juntando os dois efeitos, o não-refinanciamento dos imóveis e o aumento do desemprego, o consumo nos EUA pode ser reduzido de forma considerável. Daí as preocupações com a Wal-Mart. E se o consumo nos EUA cair seriamente deve vir uma recessão.

Uma segunda bolha, no mercado financeiro, começou a estourar agora, o mercado de derivativos. Quem financiava imóveis utilizava o recurso da securitização para se capitalizar. O mercado de derivativos das hipotecas cresceu muito nos últimos anos, era uma verdadeira ciranda financeira, pois os ganhos eram muito altos. Mas, no momento, todas as hipotecas estão indo pro brejo, mesmo as “prime” não vão estar bem das pernas por muito tempo. E as securitizações das hipotecas não valem mais nada.

Por causa disto, muitos fundos de investimento, mesmo em regiões distantes dos EUA, estão em dificuldades financeiras. A crise começou com dois fundos na Austrália que fecharam. Ao longo da semana passada só piorou, com mais notícias de fundos fechando.

Aí os bancos centrais injetaram grana nos bancos no final da semana passada, aceitando títulos podres (securitização de hipotecas) como garantia. É o fato mais assustador nessa história!

Roubini está dizendo que esta não é uma crise de liquidez, mas uma crise de insolvência. Vou explicar melhor para vocês entenderem a gravidade da diferença. Os ativos dos bancos são a carteira de “devedores” que os bancos possuem. O negócio dos bancos é emprestar dinheiro e cobrar juro pelo principal. Os ativos são o principal emprestado e o lucro são os juros.

Já que hipotecas estão naufragando e securities também estão indo a pique, é de se esperar que as carteiras de hipotecas e a carteira de investimentos dos bancos também não estejam bem das pernas. Afinal de contas, financeiras (que faziam hipotecas) e fundos de investimento (que compravam securities das hipotecas) estão falindo. Em outras palavras, muitos ativos dos bancos simplesmente evaporaram. E quando o ativo é menor que o passivo, é falência.

Para quem prestou atenção, o SEC fez uma auditoria relâmpago nos bancos neste final de semana. Provavelmente para verificar a contabilidade, para ver o que eles estavam considerando como ativo quando na verdade já vale nada, é na verdade prejuízo. O fato é que, considerando o valor da injeção financeira que os bancos centrais fizeram, considerando as condições extremamente amigáveis de tais injeções e considerando como a SÉC atuou no final de semana, é possível que tenha pelo menos um banco que já tenha falido, mas os correntistas e os acionistas não estão sabendo. Os bancos centrais só estão tentando adiar o inevitável, pois se um banco falir agora vai começar uma corrida bancária e todo mundo cai. Estamos falando agora de uma calamidade próxima da crise de 29, resultado de toda esta insensatez do mercado financeiro dos últimos anos. É isto que o Roubini está falando quando diz que é uma crise de insolvência. Se for isto, esqueçam recessão, vai ser mesmo uma depressão.

Embora a crise financeira possivelmente afetará o Brasil, pois pode afetar o crescimento mundial, as três outras crises que estão se desenvolvendo independentemente provavelmente vão beneficiar nosso país. E como o Brasil deve escapar de uma possível quebradeira dos bancos, só vamos ser atingidos diretamente quando o comércio mundial diminuir devido à expansão global da possível recessão que pode estar vindo aí. A questão vai ser o “timing” das diferentes crises.

enviada por Luis Nassif






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